Do seu jeito, do melhor jeito, de qualquer jeito

Existem muitas formas de descascar um ovo cozido.  No YouTube você encontrará algumas delas, como  o modo russo de tirar as cascas das pontas e soprar com vontade de lobo mau , a técnica de  rolar o ovo cozido na mesa para craquelar a casca antes de  colocá-lo na água gelada, o método que usa  uma mão só,  dançando o quadradinho de oito, etc.  Quase todos são unânimes sobre o lado certo de começar o processo de descascar o ovo, o lado mais gordinho, onde há um bolsão de ar.  Pesquisando vídeos sobre o tema encontrei uma forma bacana de distinguir um ovo cozido com casca de um ovo cru: girando-o.  Gire um ovo cozido e um ovo cru e veja a diferença.

A multiplicidade de técnicas se aplica a muitas coisas nessa vida, de descascar um alho a amarrar o laço do tênis. Certamente para cada uma dessas situações você já desenvolveu o seu jeito. Mas isso não impede que você aprenda jeitos melhores que o seu ou, caso exista, o  método  ideal de fazer alguma coisa.

Pelo lado racional a Internet seria o lugar certo para encontrarmos sempre o melhor jeito de fazer uma tarefa, seja dar um nó na gravata ou escovar os dentes. O que acontece é que em geral nossas decisões não são racionais e aí a gente faz do jeito que está acostumado, que aprendeu quando era pequeno, que a sua avó ensinou. Por motivos afetivos, por preguiça ou desinteresse, por desconhecimento,  fazemos um monte de coisas de formas toscas e que acabam nos causando problemas. E, em muitos casos isso nos leva a fazer as coisas do pior jeito, que é…de qualquer jeito.

É aquela hora em que você empurra a gaveta SABENDO que a coisa vai prender e da próxima vez que você for tentar abrir, vai dar merda.  É quando você coloca uma coisa no armário e fecha CIENTE de que ela vai cair na cabeça do próximo que abrir a portinha, à la Fred Flintstone guardando suas bolas de boliche.

Tem também o jeito errado que virou costume.  E, uma vez incorporado à rotina, passa a ser o único jeito de fazer algo embora totalmente equivocado. Exemplo? Lavar o cabelo. É bem provável que você esteja errando na hora de usar tanto o shampoo quanto o condicionador.

E por que a gente faz assim, mal feito, nas coxas, de forma consciente ou errado mesmo? Porque temos pressa, preguiça, porque achamos que aquela tarefa é perda de tempo, porque ela está abaixo da nossa capacidade e nos irrita fazer coisas que parecem idiotas, porque queríamos estar em outro lugar fazendo outra coisa mais proveitosa como jogar conversa fora no Twitter.

Isso acontece muito quando você tem que lavar a louça ou fazer faxina. A gente não quer fazer, entra em negação, foge, mas a louça não se lava sozinha. Nem que você tenha uma lavadora, você mesmo terá que colocar os pratos dentro.

Diante desses momentos inevitáveis o melhor a fazer (melhor em termos de energia psíquica) é aceitar o fato, saber que ele não vai durar para sempre e fazê-lo da forma mais eficiente, com o menor tempo e tirando algum proveito da tarefa. E, claro, com alguma diversão.

Faço isso com a louça. Organizo tudo antes de começar, separando metais, louças, vidros, talheres, plásticos. Estabeleço uma ordem de materiais a partir da melhor ocupação do secador de louças, por isso começo sempre com os pratos. E assim vou, escrevendo iniciais e desenhando ícones com o detergente na esponja, me distraindo com a ordem criada e com o orgulho de deixar tudo limpo. Sim, fazer isso todos os dias, o tempo todo é chato mesmo. Mesmo assim vale tentar amenizar todo sofrimento com alguma diversão.

Não sei o que você vai fazer agora, depois de ler este post, mas seja lá o que for, pense em cada um dos seus gestos. Veja se você está vivendo sua vida no automático ou no manual, se seus atos e atitudes são fruto do hábito ou da consciência, se você optou por sentar-se daquela forma ou apenas se jogou na cadeira. Se você está bebendo água porque está com sede ou porque precisa hidratar seu corpo. Se você lava as mãos de uma forma eficiente.

Porque, se você for pensar bem, deveríamos lavar as mãos antes e depois de usar o banheiro.  Depois  pra preservar o mundo da contaminação do nosso corpo e antes pra preservar o nosso corpo da contaminação do mundo.

Pense nisso.
Pense sempre que necessário, pra viver a vida sem pensar.

 

 

 

 

 

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Esse ódio no seu coraçãozinho

Não,você não está errado. Você tem toda razão. É isso mesmo que você pensa, sente, acredita. Tudo correto. Mesmo assim não está dando certo. As coisas não vão bem, sua vida está longe do que você sonhou, as coisas não acontecem. Só os problemas acontecem. Cada vez mais.
Por que será?
Será que é pessoal? Será falta de sorte? O que poderia explicar isso que você percebe e é mesmo real, o fato de que coisas boas acontecem com pessoas que você sabe que não merecem enquanto coisas ruins acontecem com você, que faz tudo sempre corretamente?
Quem sou eu para responder.
Eu sou aquela que só pergunta.
E conjectura.
Por isso vou arriscar algumas hipóteses.

A primeira delas é que fazer tudo certo nunca foi garantia de nada. Você faz certo porque é sua natureza. Ou porque teme as consequências de fazer errado. E isso deveria bastar, a paz com a própria consciência, o bom resultado, a falta de punição. Mas você faz para ganhar o céu ou o aplauso. Aí perde a garantia. Garantia de céu só para os bons, só pra quem faz de coração e acredita. E, mesmo assim, parece que tem uma cláusula que garante o céu só depois que a gente desencarnar. Só botando muita fé na recompensa. Por enquanto, melhor fazer certo porque se é assim.

A segunda possibilidade é que as coisas não dão certo porque mesmo estando certo, você faz da forma errada. Acho que isso engloba quase toda a população planetária. Você observa um fato. O vizinho fez a calçada e ficou totalmente torta. É o que você faz em seguida, como você lida com os erros dos outros que vai modificar sua vida e seu destino.

Se você, numa conversa honesta com o vizinho, disser para ele que você viu o esforço dele em arrumar a calçada, mas que você acha que não ficou muito boa e você empatiza com o problema e se dispõe a ajudá-lo, seja recomendando um bom pedreiro, botando a mão na massa e na pá pra refazê-la ou simplesmente dando apoio emocional pra ele, você está fazendo um bem. Você está realmente ajudando. Se você, ao contrário, apenas aponta o dedo pra ele e o incrimina, dizendo, por exemplo:

– Nossa, como ficou torta a calçada! Que horror!,

você não apenas não ajuda como ainda piora, porque vai fazer ele se sentir mal com a calçada, com ele mesmo, com você, com o mundo.

E, como tudo pode sempre piorar podemos em vez de dizer isso pro VIZINHO que fez a calçada diretamente podemos dizer pra outra vizinha, em estilo fofoca. Ou podemos publicar numa página no Facebook apontando dedos para o vizinho e expondo-o ao julgamento moral geral e humilhação pública. Veja, a calçada está torta, você está certo, foi mesmo mal feita e, sim pode até atrapalhar quem passa. Mas será que humilhar a pessoa que ERROU SEM intenção de errar e que está disposta a consertar é o melhor caminho?

Fácil falar, difícil fazer.

Estamos todos cheios de ódio no coração. Um ódio que é gerado pela revolta, pela indignação e que acaba nos escapando como vapor da panela e sai apitando pra todo lado, queimando inocentes.

A mais simples observação (e aqui um exemplo meu) de um querido leitor que sente falta de textos e crônicas (tenho publicado no medium.com/@rosana/ também), e que poderia ser um afago (ei, que bom! Alguém sente saudade do meu texto), vira uma ironia cortante, agressiva.

Que alquimia é essa, gente, que transforma AFETO em AGRESSÃO?

Faz sentido pra você? Ofendo porque gosto, xingo porque quero bem? Isso é tão absurdo e sem sentido como ‘bater porque ama’. Quem ama não magoa intencionalmente, não agride, não inflige dor, culpa, humilhação.

Eu também estou como você, brigo, xingo, faço muita coisa errada.
E, como você, também estou percebendo que estamos numa trilha ruim.
E que não adianta correr ou seguir adiante no caminho errado.
Tem que voltar.
E pegar um caminho melhor.
Um caminho verdadeiro, norteado pela coragem de errar e assumir. Um caminho pavimentado pelas boas intenções, mesmo que ele leve ao inferno.
Até porque o inferno tem delivery.
Todo dia chega um pacote. Você abre, tem ódio dentro.
E aí morremos todos. Mais um pouquinho.

Um ovo com uma surpresa do lado de fora

Se eu fosse descrever as duas coisas que estão acontecendo comigo ultimamente seriam essas:

– tenho estudado mais

– tenho perdido mais a esperança no ser humano

Não que a segunda seja consequência da primeira, ao contrário. É por estar sentindo que a velocidade que a tecnologia trouxe para as relações interpessoais descambou pro julgamento apressado que voltei a estudar o básico, como filosofia. Estou fazendo vários cursos no coursera.org, que já recomendei muito aqui. Um deles é o Conhece-te a ti mesmo (Know Thyself) e o outro é o guia básico para o comportamento irracional, cujo professor é um fofo.

Acho que foi por causa desses cursos, da desesperança, da terapia toda 4a. feira, do gefilte fish que fiz ontem para a família, que acabei fazendo o que fiz hoje. Vou contar.

Eu estava vindo para o R7 para gravar o Rosana Indica, quadro diário com indicação de apps e sites para melhorar a vida da gente. Ninguém assiste, mas eu faço assim mesmo. Se uma pessoa for beneficiada com um bom aplicativo, já valeu a pena. Mesmo porque, só de fazer já me divirto pesquisando e aprendendo, mesmo que ninguém veja eu já estou na vantagem. A equipe é competente e gentil e eles também me dão dicas geniais, então. tá tudo bem.

A gravação era às 13:00 horas. Mas começou a chover. O produtor me ligou avisando que ia mudar o local da externa para outro lugar. Só que a chuva piorou o trânsito e eu comecei a achar que ía chegar atrasada. Eu não estava correndo, não corro com meu carro, muito menos em dia de chuva. Mas estava concentrada no horário.

Ao chegar na esquina da rua de mão única onde viro para entrar no estacionamento, eu já estava bem à direita, pronta para virar e entrar na garagem que fica a alguns metros. Vi que três pessoas estavam caminhando em diagonal, meio que cruzando duas esquinas numa só, as três bem à minha esquerda. Virei o carro para a direita devagar (tem uma valeta) e senti que um dos três bateu a mão em meu carro, fazendo aquele barulhão no capô. Eu me assustei e quase perdi a direção. Não entendi o motivo. Pra mim eu não tinha feito nada. Parei o carro no estacionamento, peguei meu papelzinho e fui até a porta.

E aí eu vi os três passando na minha frente. Perguntei pra um dos rapazes por que ele tinha batido no meu carro. Ele disse que eu tinha ‘jogado o carro em cima dos três para atropelá-los’. Respondi que eu não joguei o carro em cima deles, que jamais faria isso. E aí aconteceu aquilo. Começou um certo bate-boca desproporcional ao nada que tinha rolado. Porque briga nunca é pelo motivo aparente, é sempre uma válvula de escape pra todos os medos, dissabores, raivas, injustiças da vida de todos os envolvidos. A moça entrou na conversa e disse que eles estavam atravessando corretamente e que a errada era eu e etc. Eu disse que não tinha intenção de fazer nada de errado, que se fiz, não foi de propósito e meio que pedi desculpas de um jeito torto.

Eles seguiram pela calçada falando de mim. E eu fui caminhando atrás. E entramos todos no mesmo lugar. Ou seja, eles trabalham na mesma empresa que eu.

Caminhei atrás dos três comentando o caso, ironizando sobre minha pessoa, atitude e vi os três entrando num mesmo departamento.

Vim para minha mesa, peguei minhas coisas e fui gravar. Gravei, deu tudo certo, foi ótimo.

Assim que cheguei na minha mesa, lembrei da lição que estudei em casa, pouco antes de sair e fiz uma pergunta pra mim mesma:

– E se eu estiver errada? E se tudo o que eu pensei, achei, supus estivesse equivocado? E se tudo o que parece não for o que realmente é? Adianta ter razão se meu mundo ficou pior? Se o mundo a minha volta ficou pior? Se a alguns andares e metros de mim, três pessoas estão com raiva e me odiando? Qual a diferença entre estar certa e errada se a consequência disso é ruim do mesmo jeito?

Que mundo eu quero pra todos nós, afinal?

(repare que eu ando questionando muito)

Que pessoa sou eu?

Bom, pelo que aprendi no curso de filosofia, somos as nossas atitudes de sempre, somos o nosso comportamento repetido. Porque se você sempre agride e sempre briga é porque você É agressivo. Não adianta dizer que você não é agressivo se você SEMPRE briga.

E então eu resolvi ser quem eu sou e fazer o que eu sou, independente do resultado.

Peguei meu cartão de crédito e fui comprar três ovos de páscoa. Grandes. Lindos.

Paguei-os, peguei os três ovos numa sacola e fui até o departamento onde os três funcionários entraram.

Entrei e não vi os vi na imensa sala.

A recepcionista ofereceu ajuda. Eu não sabia como dizer. Não sabia como identificá-los, não sabia os nomes. Fiquei com vergonha de tentar descrevê-los, parecia tudo tão patético. O que dizer? ‘Oi, eu sou uma pessoa que bateu boca com três pessoas dessa sala?’. Pedi pra dar uma volta e olhar nas salas anexas.

E ai eu vi a moça.

Voltei pra recepção e perguntei se ela poderia avisá-la que eu queria falar um minuto com ela.

A gentil recepcionista entrou e chamou a moça, que saiu da sala.

Entreguei o ovo de páscoa, pedi desculpas, disse que eu estava errada e que desejava a ela uma boa páscoa. E entreguei o ovo. Pedi também que ela fizesse o favor de entregar os outros dois para seus colegas, com minhas desculpas também.

Ela me olhou nos olhos, sorriu e disse que não precisava. Quase não aceitou o presente. Insisti. Ela o pegou.

Pedi desculpas novamente e dei um abraço nela. Foi sincero, foi real, nós duas ficamos felizes, daquele jeito humano,  quando os olhos se alinham em paralelo e as almas se tocam sem falar.

E saí.

Senti vontade de chorar. Chorei um pouco e fui tomar um café. Encontrei a Lelê ainda sob efeito da emoção e contei o que tinha acontecido. Ela disse que eu deveria escrever contando o que aconteceu.

Esse post, portanto, é sobre isso. Não é um tribunal de julgamento para saber quem fez o que errado. Não é luta de classes, não é briga entre pedestres e motoristas, não é treta de twitter, desabafo de facebook. Tentar reduzir tudo é outro erro. Somos todos seres humanos tentando sobreviver, tentando manter o que de humano temos. E, confesso que tenho me perdido muito nesse quesito.

Sempre me perguntam se eu quero ser feliz ou ter razão, porque às vezes as coisas não incongruentes.
Pois apesar de ter um cérebro que gosta de ter razão eu quero mais do que as duas alternativas. Quero mais do que estar certo e ser feliz. Quero ter um ambiente bom a meu redor, pra mim e pra todos. Quero poder levar um ovo de chocolate e desejar boa páscoa pra uma pessoa, apenas porque somos humanas. Apenas porque acredito piamente que o fato de ter razão não dá a ninguém o direito de ser estúpida.

Feliz páscoa pra você também.
Sinta-se abraçado.

O mundo acabou. O mundo que eu conhecia, pelo menos, acabou. Posso usar o seu?

Olha, eu não preciso usar seu banheiro, muito obrigada, o meu está funcionando. Se eu precisar eu peço. Mas, se você não se incomodar, posso usar seu mundo um pouquinho?

Sabe o que é, eu acho que sou de outro mundo.

É, de um mundo que não existe mais.

Não era assim grande coisa, mas nesse mundo de onde eu vim a gente respeitava as pessoas mais velhas. Sabe, pai, mãe, avó, mesmo quando não é da gente? Era comum chamar de senhor, de senhora, era assim uma coisa normal mesmo. No ônibus, no ponto, na sala de espera, em qualquer lugar, quando uma pessoa mais jovem ou saudável via um idoso em pé, oferecíamos nosso lugar. Não era obrigatório, não tinha lei pra proteger o idoso, era uma coisa que pairava no ar da humanidade, chamava-se empatia. Também acabou, eu acho.

Mulheres grávidas, crianças, pessoas frágeis, gente carregando peso, todos os que sofriam mais eram atendidos por aqueles que estavam em estados melhores de menor sofrimento. Era natural naquele então.

Lembro que fazer fofoca não era sinal de grande sucesso e audiência, não rendia milhões pros fofoqueiros. Era uma coisa que acontecia, claro, mas não era tão frequente e, certamente não era uma atitude festejada como hoje. Hoje, fofoqueiro é respeitado, porque tem poder, o poder de destruir! É ruim, mas é um poder e vilão é tão querido quanto herói no mundo que está a minha volta, tão diferente daquele mundo de onde eu vim.

Sei que é chato falar de mundos extintos, também não gosto. Não sou muito saudosista. É só que, bem, eu estava um tanto quanto adaptada a uma porção de regras que acabaram assim, subitamente.

Cuidar da própria vida, por exemplo, era corriqueiro. Ter privacidade, não compartilhar intimidades com qualquer um. Ah, e a gente também comia melhor, menos, mais devagar, coisas sempre naturais e, por incrível que pareça, obesidade não era assunto do dia a dia. Não existiam academias, mas também não tinha tanto automóvel. Todos andavam bastante e se exercitavam nas tarefas do cotidiano.

A tecnologia é muito boa, o mundo ficou mais veloz, mais eficiente, mais competente em muitas coisas. Mas aquele mundo feito por pessoas basicamente gentis, morreu.

Claro, o mundo sempre teve coisas horríveis. Crimes, pedofilia, preconceito. Guerras. Quanto horror na história do mundo. Mas as pessoas, a massa, o povo, ainda oferecia alguma esperança.  Ou, estava tão ocupado sobrevivendo, que cuidava mais da própria vida do que a vida alheia.

O que vejo agora, nessa bolha conectada de 2 bilhões de pessoas é muita maldade. Muita gente cruel, agressiva, precisando urgente de um curso de ~anger management~. Gente que se mete na vida de todo mundo o dia todo, que julga a vida sexual de qualquer artista, modelo, blogueira, puta, vizinha. Gente que grita, ofende, profere todo tipo de maledicência sem parar. Que acusa sem provas, que primeiro atira e depois pergunta. Que acredita piamente que pedir desculpas por algo que fez de errado é humilhação. Como assim, humilhação? Você causa um mal pro outro ser humano, ainda que sem intenção, percebe que se enganou, que está errado e deixa como está porque seu ‘ego’ vai sentir-se ‘humilhadinho’? Não entendo. Não era assim lá no meu mundo.

Hoje, por exemplo, nem consegui acompanhar. Mas era só gente falando da modelo que teve uma filha com alguém que ela não revelou e que suspeitaram ser o marido ator de uma atriz e que por isso o casamento de ambos teria sido abalado, mas que, no final das contas, o colunista afirma que o exame de DNA revela que o bebê era, enfim, de um empresário que seria casado com a blogueira de moda, que nega tudo e vai processar o site e…ah, desculpa, não vou acompanhar.

Tem também um outro povo no facebook que está rindo muito da garota pobre que fala de um jeito vulgar sobre pessoas vulgares segundo ela.

Me perdi nos assuntos, mas li alguém falando que alguém registrou em vídeo (foi vídeo?) uma moça que fez alguma coisa muito nojenta numa balada em BH e o vídeo…

Ah, não sei. Não sei querido leitor. Eu não sei quem são essas pessoas, não sei que importância tem tudo isso, não sei se isso faz parte de um projeto para melhorar a humanidade ou é apenas uma tentativa coletiva de fingir que tudo é tão importante a ponto de fazer com que a gente esqueça que vamos todos morrer.

Porque vamos mesmo.

No meu mundo, pelo menos, éramos mortais.

E era justamente essa consciência, querido leitor, da nossa FINITUDE que fazia com que valorizássemos tanto o nosso tempo útil. Tempo de vida na Terra. Tempo usado pra fazer coisas que melhorem o projeto humano.

Mas parece que não deu certo mesmo. Aquele mundo de onde eu vim, acabou. Olho em volta e tem outro mundo  em torno de mim. Não o reconheço. Todos gritam. Todos fofocam. Todos escarnecem de todos. Todos odeiam tudo. Todos apontam dedos. Todos julgam. Todos ridicularizam os pobres e torcem pra que os ricos se dêem mal. Todos ficam felizes quando um milionário perde tudo. Ficam mais felizes quando vêem que alguém que tinha deixou de ter do que quando eles próprios conquistam algo para si.

Não conheço seu mundo, querido leitor, mas se você puder, posso usá-lo um pouquinho?

Aquele mundo de onde eu vim onde as pessoas tratavam os outros da forma como queriam ser tratados, onde o respeito pelo próximo era condição inerente à existência, onde a liberdade da gente terminava onde começa a do outro, acabou.

Posso entrar no seu mundo?
Não vou demorar.
Eu vou só trancar a porta e chorar até passar essa desesperança típica dos desterrados, dos imigrantes que perdem sua terra natal.

Perdi minha identidade humana.
Agora, somos só zumbis conectados em rede.

Não se engane

Quando alguém diz que você está misturando alhos com bugalhos é hora de parar e ver o que está acontecendo. Primeiro que ninguém sabe direito o que é um bugalho, a menos que você resolve entrar no google dar uma busca. Pois bem, o bugalho é uma bolota que as árvores produzem nos galhos. Tem uma explicação que liga os bugalhos a insetos aqui e outra que relaciona o termo bugalho com olhos esbugalhados (redondos como os bugalhos, saltados) aqui. 

Acontece que pra você confundir alhos com bugalhos você precisa estar com eles misturados, ou seja, você não foi até a ‘fonte’. Porque o alho nasce embaixo da terra e o bugalho no galho da árvore, ou seja, não tem chance de você misturar os dois se você mesmo for procurar por eles. A menos que você seja uma pessoa iludida que acha que pode encontrar uma cabeça de alho num galho de carvalho. Nesse caso, bem, a cabeça do alho está pensando melhor que a sua.

Portanto, alhos e bugalhos só são confundidos quando você está procurando no lugar errado ou quando você está confiando nas misturebas e informações dos outors.

Fim da dualidade alho-bugalho.

Vamos para a outra, a joio-trigo.

Já escrevi sobre isso aqui no blog. Joio e trigo além de parecidos, nascem no mesmo lugar. O joio é a erva daninha que nasce junto com o tribo e que se parece MUITO com a planta. Aí fica difícil, dirá você. Sim, mas só no começo. Porque, passado o tempo, o trigo cresce e vira trigo, tem cara de trigo e o joio continua joio. Ou seja, a confusão entre joio e trigo fala de precipitação, de ansiedade. De gente que confunde na pressa, porque não quer ou não consegue esperar. Se você esperar, mesmo que o joio e o trigo confundam você no mesmo lugar, ao longo do tempo você saberá distinguir um do outro.

E o gato por lebre? Aqui é diferente. Você não é sujeito da ação. Não é que você foi ao lugar errado ou confundiu alhos e bugalhos visualmente. Nem porque você não teve paciência de esperar o tempo mostrar a diferença entre joio e trigo. Aqui você é que foi enganado por alguém que vendeu carne de coelho pra você, mas entregou carne de gato, ou seja, alguém que ludibriou você oferecendo pelo preço de algo mais caro, algo de qualidade inferior. Aqui, o ditado não compre gato por lebre harmoniza com quando a esmola é demais o santo desconfia.

E assim termina este pequeno post sobre enganos.

Espero não ter me enganado nas coisas que escrevi.

 

Essa mania de voltar para o passado

Como muitas pessoas, também acho divertido olhar para fotos do passado, lembrar de coisas da infância. Mas faço isso muito esporadicamente. Não sei se é porque é minha natureza ou se porque minha infância já ficou tão longe que não é mais referência pra nada. Mas voto na primeira opção. É o meu jeito de ser. Olho pra minha volta, olho pra frente. Não esqueço meu passado, minha origem, não é isso. Eu apenas não volto pra lá. Porque esse tempo não existe mais. O que existiu está incorporado em mim e em tudo o que sou e faço. Por isso não sinto necessidade de ficar me referenciando nas décadas que já foram.

Exatamente por isso não gosto do Facebook. Eu sei que o site é um sucesso, que ele também tem uma função importante de disseminação de notícias, novidades, de reencontro com familiares e amigos. Por isso eu ainda uso o Facebook. Veja, não disse que ‘não uso, não usarei nunca, odeio quem usa’. Eu disse que não gosto. E não gosto exatamente porque o Facebook é de hoje para trás. Ele é um obituário em vida, uma coleção de coisas e pessoas do passado. Para os saudosistas, um paraíso. Para os apaixonados pelo presente e ligados no futuro, apenas chato. Cada um, cada um. Não estou julgando ninguém, apenas falando sobre meus gostos.

Voltar para o passado, como qualquer coisa, pode virar uma mania. Um vício.  E aí, quando qualquer coisa não vai bem no presente a pessoa corre pra lá. Sempre tive isso em comum com o Emilio Surita nos anos que trabalhei com ele na Pan e no Pânico. Ele, como eu, detesta recuperar coisas velhas, repetir sucesso antigos, copiar receitas do que já deu certo um dia. Mas somos votos vencidíssimos numa massa de seres humanos inseguros que têm no passado a única CERTEZA!

Essa é a chave que abre aquela portinhola trancada que tantas vezes tentamos esquecer.

Queremos ter CERTEZA, garantias das coisas. Não rola. Vida não dá certeza. Então o ser humano vai lá para o Planeta Ilusão, que começa hoje e termina no dia em que você nasceu, onde tudo é IMUTÁVEL, porque o passado é aquilo que você não pode mais mudar! E, se é imutável, é cheio de ‘certezas’?

Olha a ilusão.

Porque as certezas do passado já foram. Não estão mais em lugar nenhum a não ser nas impressões guardadas nas memórias das pessoas. E, note, não são os FATOS, mas as impressões que tivemos dos fatos, na época em que eles aconteceram, o que é totalmente diferente de agora! E é por isso que quando a gente revê aquele filme, aquele brinquedo, aquela foto antiga, a gente tem um choque. Porque nossos olhos já são outros. A série Perdidos no espaço, que eu adorava quando era adolescente virou uma trasheira cômica e pitoresca quando revi num box da série comprada há alguns anos. Foi divertido fazer um update nas impressões e lembrar, por breves momentos, da adolescente que fui. Mas passou. E, até que alguém invente um jeito de baixar os arquivos de toda a memória de cada pessoa ele irá perecer junto com a gente.

E, como qualquer pessoa com cérebro consegue concluir, o passado já foi e o futuro ainda não veio. Portanto tudo o que temos agora é o agora. Esse agora fugaz, franguinho esperto que foge quando tentamos pegá-lo, areia que escapa entre os dedos, água que evapora.

Assim, nesse domingo de chuva, nesse post simplório, olho a minha volta e vejo um escritório zoneado, cheio de coisas entulhadas, papéis empilhados e uma montanha de coisas para fazer. Tudo isso é confuso, mas é real. É presente. E por tudo o que tenho agradeço. E por tudo o que sou, agradeço. E por tudo o que posso vir a fazer pelos outros, pelo mundo, peço coragem. E para que possa continuar a produzir e aprender e compartilhas e a amar, peço saúde. E para você que lê agora, querido leitor, desejo o mesmo que desejo para mim e para qualquer ser humano. Lucidez, serenidade, generosidade, sabedoria, alegria, leveza, compreensão.

Bom domingo.
O presente é uma dádiva.