Capítulo 13 – Hermann’s Airlines ou viajando pelo interior da maionese

Se alguém me perguntasse há alguns anos o que eu mais gostaria de fazer na vida eu responderia na lata: viajar pelo mundo. Sempre imaginei que o ser humano fosse originalmente programado para ficar girando pelo planeta, de galho em galho, de continente em continente, buscando a si mesmo em círculos até ficar cansado e aceitar a morte como a grande viagem, a mais bela de todas, aquela que não exige passagem, passaporte, reserva no hotel, declaração de bagagem e nem as famigeradas fichas de entrada e saída dos países perguntando se você está levando sementes ou se viaja com mais de dez mil dólares.

Sempre imaginei que viajar fosse a coisa mais fina e elegante que um ser humano pudesse praticar. Pessoas viajadas sempre me pareceram mais cultas, experientes e vividas, capazes de grandes conversações e possuidoras de um talento especial para a reflexão filosófica que advém da observação e da vivência multicultural.

Isso era o que eu pensava, antes de tomar consciência que pessoas de todo tipo viajam, inclusive aquelas que jogam lixo por todos os continentes, as que fazem xixi nas paredes de todo o planeta e as que não conseguem resistir à tentação de deixar o banheiro pior do que estava quando entraram.

Eu devia ter aprendido tudo isso bem cedo pois logo que eu nasci fui passar um tempo no Paraguay. Nunca perguntei nada sobre isso para meus pais porque achei que devia ser um assunto muito íntimo. Mas tenho umas fotos neste portentoso país das guarañas e muambas. Aos 3 anos morei um ano na costa leste dos Estados Unidos. Tenho algumas poucas fotos, já coloridas nesta fase. Aos 12 fui morar dois anos no Canadá. Depois disso fui várias vezes para os Estados Unidos, a passeio ou a trabalho, para lugares tão civilizados como Nova York ou Denver, no Wyoming ou cidades tão esquecidas como Boise em Idaho, ou Casper no Wyoming. Ninguém acredita quando eu conto mas da janela do hotel em Boise, vi um tumbleweed, aquela espécie de bola de mato seco que rola com o vento. Há quem jure que isso só existe em filme americano, tanto quanto a areia movediça. Mas embora eu ainda não tenha visto nenhuma areia movediça, juro que vi um tumbleweed rolando da janela.

Hoje pela manhã, cheguei de Paris com toda a família. Eu já conhecia a cidade, mas sem os filhos. Viajei pela Europa há alguns anos com meu marido, de carro e fui a co-pilota mais eficiente que o guia Michelin já conheceu.

Viajamos em cinco e não fosse o número ímpar cairíamos quase na categoria da arca de noé. Pois éramos um casal de meia idade, uma jovem na flor da idade, um pré-adolescente naquela idade e uma criança que nem pensa no assunto. Foi cansativo, divertido e inesquecível, não necessariamente maravilhoso. Mas foi importante, essencial, como tudo o que a gente aprende na vida.

Não vou ficar aqui descrevendo a Torre Eiffel mas salvo prova em contrário são 688 degraus para subir até o segundo estágio, onde fica a lojinha de souvenirs. Também não vou ficar falando sobre a confusão dos carros circulando em volta do Arco do Triunfo, cada um querendo virar à direita numa das 12 ruas e avenidas que saem de lá. Não sei se são mesmo doze, porque é um círculo e a gente esquece onde começou a contagem. O que eu sei é que além de mostrar a monalisa para meus filhos fomos até a casa onde Leonardo da Vinci morou de favor aos 64 anos, em Amboise, no vale do Loire.

Esse sim foi um passeio que valeu a pena.

Depois de andarmos dias e dias nas estações de metrô com cheiro de xixi e cheio de gente mau-cheirosa, alugamos uma Espace da Renault para sete pessoas. E, claro, como Paris não tem lugar para estacionar como sempre, acabamos levando uma multa. Já levamos multa até em Tiburion, uma cidadela charmosa perto de São Francisco, numa outra viagem que fizemos de carro, desta vez, nos estados Unidos, entre Los Angeles, São Francisco e Las Vegas.

O carro foi providencial para os passeios longos, como nossa revisita a Versailles. As crianças acharam chato. Eu achei repetitivo. Mas o fato de poder praticar francês sempre vale a pena, mesmo que seja só para dizer ao porteiro que são dois adultos, uma estudante e deux enfants. Pra gastar o francês, tem que ser na França mesmo, porque no Canadá o dialeto é um pouco diferente e na Martinica, onde estive numa pré-lua de mel, onde só fazíamos três coisas, só consegui emitir sons parecidos com os que o Guga emite na quadra, por motivos outros que o tênis. Enfim.

O melhor dia da viagem foi nosso passeio ao vale do Loire, recomendado pelo Marcos Aranha, via ICQ. Marcos, que conhece o mundo, disse que de todos os passeios que fez, um dos melhores foi esse, de carro, com os filhos, pelos castelos do Loire.

Como acordamos tarde, não pudemos aproveitar tanto o dia mas fomos ver o castelo em Blois, cidade charmosa e encantadora, outro em Amboise e o mais maravilhoso de todos, o que não poderíamos perder, o que recomendarei para sempre para todos, o castelo de Chenonceau. Não há como comparar, como descrever. É o famoso ‘valeu a viagem’. Só vendo de perto, não tem jeito. Tem que pegar o avião e ir até Paris. De São Paulo até lá pela TAM, são 11 horas, 40 minutos, quatro banheiros num avião que era da Golf Airlines, cujo leasing de 6 meses está para terminar e não será renovado, o que explica o fato de muitos dos aparelhos não funcionarem e assim, não exibirem filmes, nem mesmo nas poltronas que não levantam os braços, neste maldito avião que só tem 4 banheiros para toda a imensa classe econômica. De Paris, mais uns 230 kilômetros de carro pela A1 em direção à Tours. Não importa, vale, sempre vale, no vale, do Loire.

Chenonceau tem jardins dos dois lados. Isso, depois de passar por uma alameda bucólica e atravessar a ponte do castelo.

Essa é a parte boa. Mas levar crianças tem o outro lado. na EuroDisney, uma solene bobagem, em cada lojinha, uma briga. Até que meu filhos cismou que queria comprar uma arma. Ele adora armas e eu, adeio todas. Depois de muita negociação, chegamos a um acordo, que envolvia uma ridícula pistolinha de brinquedo, muto infantil, daquelas que ficam ao lado do caixa na hora de pagar e partir, uma última tentação de consumo. Desde o princípio eu sabia que não ía dar certo. Muito a contragosto, comprei-a.

Na hora de fazer as malas, eu senti que não estava certo botar uma pistola na mochila de um menino de 12 anos, mesmo que ela fosse de brinquedo, mesmo que ficasse na caixa junto com os legos e a catapulta medieval. Senti e tinha razão. No aeroporto Charles De Gaulle, ao passarmos pelo detetor de metais meu filho apitou de norte a sul. Era a fivela do cinto e mais todos os papéis metálicos que embalavam os chicletes no bolso. Porém, ao mesmo tempo em que ele apitava, sua mochila passava pelo raio-X e o segurança viu a pistola. Parou tudo. Abri a mochila, tirei a pistola e por sorte, os franceses não são como os chatos dos americanos, capazes de condenar um menino de 6 anos por assédio sexual por beijar uma amiguinha de 4. O francês pegou a arma de brinquedo, fingiu que atirou no outro colega e riu muito. Aproveitei a onda e expliquei que meu filho era um traficante internacional de goma de mascar. Raquel então, começou a rir muito e o francês disse que ía retê-la por tirar sarro dele! No entanto, a arma foi apreendida, colocada num envelope e despachada no avião. Não preciso nem dizer que depois de chegar ao Brasil tive que procurar um agente da TAM pra recuperar a arminha. Da próxima vez não compro e pronto.

Viagem é como a felicidade é feita de momentos. Sentar numa pracinha em Blois, cidade medieval e comer uma baguette com presunto e ementhal. Depois, comer uma tortinha de morangos frescos com creme. Passear pelas vinícolas, atravessar o Loire com a família e cantar “O rio…de Piracicaba…”. Encontrar um restaurante italiano e chorar de emoção por compreender todo o cardápio.

Aqui, uma pausa para falar sobre comida. Engordei, of course, mas nada que não possa ser perdido em pouco tempo e que não tenha valido o prazer. Se bem que, prazer para cada um é muito diferente. Minha filha Anita, de 6 anos, acha que prazer é segurança. E assim, na primeira noite em Paris, quis comer no McDonald’s. Fomos a um Mac próximo ao Opera e lá encontramos algumas diferenças da outra viagem. Por influência da gastronomia francesa, cada dia tem um sanduíche especial dedicado a uma região da França. Comemos um delicioso Samedi. Tivemos momentos de glória, como um pequeno restaurante perto do hotel e momentos de dedespero, quando perdemos a hora da volta de um passeio e encontramos tudo fechado nas redondezas. O único restaurante aberto e disposto a nos servir às 11:30 da noite trouxe escargots tão queimados que achei que eram Escargots à Joanna D’Arc. Sem falar da minha salada de galinha, um suposto salpicão, que veio com arroz cozido no meio, parecendo mais uma reciclagem de todos os restos que sobraram dos pratos durante o dia. Bleargh.

Meu humor também varia muito em viagens. Há dias em que acordo cantando e em outros, estou cansada e com vontade de passar o dia dormindo. Meu marido acha que a gente tem que aproveitar ao máximo o tempo em viagem e não deixa ninguém dormir, descansar ou parar por um minuto. Não é fácil. Como eu mesma disse, ía faltar programa. Tanto é que para gastar o resto do filme da máquina e o resto do tempo da viagem, ficamos dando voltas de carro em Paris, com chuva, achando ótimo o terrível engarrafamento.

O problema foi…atualizar o Farofa. Achei que ía ser bico, era só achar um cyber café. Hum-hum. Foi quase fácil, exceto pelo fato de ter sido impossível. Começou com uma ironia terrível do destino: a lista de cyber cafés que eu peguei da Internet antes de viajar, não funcionou. E a primeira tentativa foi assim:

Paris é pequena, uma quase batata assada recheada com o rio Sena, dividida em ‘arrondissements’, arredores, começando do centro, que é o no. 1, ótimo lugar para começar e seguindo em espiral até o vigésimo.

A numeração é referente aos prédios e não à metragem, assim, o número 57 será a 57a. construção da rua. E lá fui eu, andando à pé, com frio, marido, filhos, procurando o maldito cyber café. Pra piorar, era domingo, estava tudo fechado, mas eu só queria ver ‘aonde ficava’. Não ficava. Não havia nenhum cyber café naquele endereço da Internet.

Procurei outros em outras ocasiões por perto de onde estávamos e não achei. Quando víamos um na rua, como no Quartier Latin, meu marido não queria parar o carro. Quando víamos uma saída do metrô indicando um cyber café, eram as crianças que queriam voltar logo pro hotel. E depois dos primeiros 5 dias, finalmente, rodando de carro, descobri que no final da própria rua onde eu estava hospedada, lá estava um cyber café.

Na volta do passeio, fui decidida até lá, andando feliz, louca pra atualizar meu site através de um blogger. E ao chegar lá, dei com meu nariz vermelhor e gelado na porta. Tudo, quase, fecha às 7 da noite. Era sexta feira, 7:01. E mais uma detalhe, não abre nem aos sábados e nem aos domingos. Definitivamente, os parisienses não dão nenhuma importância à Internet. Estando em Paris a gente não só entende por quê como também acha que eles fazem muito bem.

Contar viagem é sempre uma coisa chata para quem lê, é o que eu penso, porque viagem é para viver, sentir, experimentar. Pior que isso só mostrar video caseiro do casamento da neta, do batizado do sobrinho, da formatura do filho. Só interessa pra quem participa.

Por isso, não quero transformar esse texto num diário de bordo, num relato organizado de viagem e sim, falar um pouco dos sentimentos humanos que afloram quando estamos sem referências da nossa vida diária.

O que temos para vestir é o que levamos na mala. O que vamos comer passa a ser uma escolha múltipla e cheia de surpresas, mexendo totalmente com nosso sistema operacional interno. Todas as coisas que botamos goela abaixo são estranhas para as entranhas.

Arrumei algumas brigas e discussões durante a viagem o que prova que meu francês até que está bem bom. Você só percebe que fala outra língua quando é capaz de brigar, momento em que seus sentimentos precisam ser imeditamente convertidos em comunicação compreensível sem passar pela ‘paradinha’ da tradução mental. Em outros casos, não foi preciso brigar porque ficou claro o desprezo que alguns moradores locais tem por estrangeiros em geral. É a velha xenofobia do velho continente, especialmente em relação à pessoas do novo mundo, do terceiro mundo.

Um exemplo? Quando todas as roupas estavam praticamente sujas e as opções para o dia seguinte eram ir à loja e comprar meias, calcinhas e camisetas, decidi que procuraria uma lavanderia. Da janela do hotel eu podia avistar três, exatamente diante da porta. Como as crianças praticam muito o esporte de derrubar catchup, molho e refrigerante na roupa, não havia mais um moletom decente para que vestissem.

Na primeira lavanderia, quando perguntei se lavavam roupa de criança, aquela cara de nojo. Criança? Que horror! Eles lavam até roupa de cachorro mas criança é uma coisa super mal vista em Paris. Excetuando-se pela péssima Euro Disney e o Parque do Asterix que, pela terceira vez não fui, nada é feito para criança. Se não me falha a memória há poucos anos a França promoveu uma campanha para que os casais tivessem filhos, pagando-os com bônus como incentivo além de pagar de 16 a 26 semanas de licença maternidade. O mesmo aconteceu num restaurante que olhou para Anita, de 6 anos como se fosse uma ofenda levar uma consumidora tão pequena.

A segunda lavanderia disse que poderia lavar, sim, mas que levaria 14 dias. Achei uma maneira elegante de dizer que não. A terceira, com um senhor muito simpático, disse que tinha muito serviço e não poderia aceitar o pedido mas deu uma explicação: muita gente tirou os mantôs e casacos do armário e mandaram lavar. Europa tem dessas coisas de mudança radical de estação. E, de fato, o senhor conversou comigo sob uma avalanche de cabides alinhados como um exército. Assim, voltei para o hotel e prudentemente lavei calcinhas e cuequinhas das crianças, pares de meias de todos e pendurei em todos os lugares improvisados do quarto. Eu sei, eu sei, todo mundo seca coisas atrás do frigobar mas este era embutido no armário. Não vou descrever esta cena miserável de roupas úmida, mas lembrei com saudades dos fios retráteis sobre a banheira que muitos hotéis colocam exatamente para este fim.

A viagem deixou um saldo positivo na relação entre todos nós. Conviver com a própria família 24 horas durante vários dias atualiza as informações. É sempre bom que alguma pessoa além da empregada saiba o que seu filho gosta de comer.

Capítulo 14 – Ah, se eu fosse você…

Eu acho a vida curta. Com o passar dos dias vividos, vou encurtando a minha e assim começo a achar que pessoas que se vão aos 88 anos estão indo cedo, na flor da terceira juventude. Poderiam ficar mais, tomar mais um cafezinho, ou um chá com bolinhos como fazem os imortais da Academia Brasileira de Letras.

A vida deve ser vivida, nem suposta nem adivinhada: vivida. Acabei de perceber isso agora mesmo. Para colocar o link do site oficial da Academia Brasileira de Letras, fui direto ao endereço que imaginei: http://www.abl.org.br mas dei de cara com a Associação Brasileira das Editoras de Listas Telefônicas (e guias informativos). Muitas vezes a gente tem certeza que acha mas na hora H descobre que se enganou. É assim mesmo, enganar-se é um verbo a ser muito conjudado pela vida afora.

Completei 44 anos e entrei para a seleta safra dos que chegaram ao planeta em 1957 e que estão passando neste momento pelas piadas de tração nas quatro rodas, motor 4×4, on-road e off-road. A piada é realmente válida, sinto-me pronta pra enfrentar qualquer terreno, especialmente a vida terrena. A idéia de morrer está fora de cogitação e por enquanto só serve de tema para conversas e piadas, nada mais. Nem sofrimento.

Entre os vários momentos em que falo sobre a morte ou o após-a-morte, está um que contei recentemente a meu dentista. É o momento da consciência-caveira, ou o ego-esqueleto. Sempre me ocorre que, depois que eu tiver morrido e desencarnado, não apenas minha alma sairá da minha carne como também minha carne sumirá de cima dos meus ossos. Um dia, estarei deitadinha sorridente, com meus ossinhos e todos saberão que alguns dos meus dentes não são originais. Todos verão pela minha arcada dentária quais dentes foram tratados, arrancados, perdidos, implantados ou apenas, mal cuidados. Sempre que penso nisso fico muito chateada pois alguém que me amou em vida apenas pelo meu sorriso ficará decepcionado ao descobrir que algumas peças do meu lego bucal não eram verdadeiras. Depois, me consolo, pensando em quantas outras caveirinhas mulheres terão dois saquinhos cheios de silicone apoiadinhos sobre os ossos do tórax.

Falando em estado-caveira, lembrei-me de um insight que tive quando a Raquel, minha filha de estimação, decidiu visitar o túmulo do Jim Morrison na nossa última visita à Paris. Não importa em que época a pessoa tenha vivido, se ela foi enterrada em algum lugar seu túmulo estará aberto à visitação pública. Tão público que na Internet existe o Find-a-grave, com uma base da dados incrível a respeito de personalidades que já voltaram a admirar o gramado pelo sistema radicular. Para testar, entrei agora mesmo e digitei Sinatra e encontrei a lápide do famoso Old Blue Eyes, que, coincidência ou não, é azul.

Me ocorreu que até a pessoa mais reservada, aquele ídolo que não suporta o assédio dos seus fãs, terá que conviver por toda a eternidade com visitações constantes, gente chorando sobre seu jardim, colocando presentes e conversando durante horas. Eu mesma farei isso com Woody Allen. Adoro todos os filmes dele, acho-o genial mas ressinto-me pelo fato de não ter nenhuma chance de conversar com ele. Por tudo que li, descobri que ele simplesmente odeia gente, não suporta assédio e tem verdadeira paranóia de gente que chega perto dele querendo um papinho de fã. Mas deixa ele partir deste para um cenário melhor. Vou sentar ao lado de seu retângulo horizontal e ficar horas e horas comentando todos os roteiros, os filmes e os detalhes.

Ou não.

Talvez eu não faça nada disso, talvez eu mude de idéia, talvez eu esqueça, não sei. Sim, porque além de viver essa experiência única de ser eu mesma também há este detalhe, o de que nem eu mesma sei o que vai acontecer comigo. Digo mais, não tenho certeza se há um ‘o que vai acontecer comigo’ escrito ou predestinado em algum lugar para que eu possa tentar o acesso e em caso de conseguí-lo, decifrar o código do previsto.

É muito mistério para cada um. Como eu disse a um amigo meu, acho que deve existir reencarnação porque D’us não vai ter tempo de fabricar tantos bilhões de almas individuais. E não deve existir destino porque não há quem possa fazer um roteiro original para cada personagem. É muito texto. Se bem que eu amigo meu muito perspicaz disse que o roteiro é um só, os personagens é que são muitos. Mesmo assim, é muito diálogo e muita rubrica pra um roteiro só.

E no entanto, é tão difícil para mim assumir a mim mesma. Estou levando décadas para fazer algo que parece tão simples, que dá a impressão de que já vem com o sistema operacional da pessoa. Mas não vem. Pelo menos, na minha década, não vinha. Talvez agora, que o mundo está mais moderno, as coisas tenham evoluído, não sei.

Só sei que cada dia é uma nova batalha de auto-conhecimento e principalmente de auto-aceitação.

E o problema original é justamente… a vaidade.

A vaidade emana após dois eventos na vida de cada um: o primeiro, a consciência de como se é e o segundo, a percepção de que poderíamos ser melhores.

A primeira parte é um show, o famoso “conhece-te a ti mesmo”, que teve montagens em todo o planeta, em diferentes regiões e religiões, um show de público e crítica. Mas não pegou muito nos meios de massa eletrônico, porque na TV, por exemplo, fez muito mais sucesso o “conheça-me a mim mesma!”. Na Tv, todo mundo quer ser visto, conhecido, pra ficar famoso e consequentemente, requisito para as festinhas que pagam 15 mil reais apenas pela presença do seu lindo corpinho. Ser pago pela presença é realmente o que há em matéria de fama estática.

A segunta parte é uma bad trip, evite-a a todo custo. Esse negócio de achar que a gente sempre poderia ser melhor não é do bem e só leva a gente para caminhos perigosos e sem volta. Alguns terminam num abismo, péssimo pra quem corre sem freios na vida. É olhar para o espelho e concluir que a gente poderia ter isso mais assim, aquilo menos assado, e mais dois daquilo ao ponto. OK, é legal dar um tapa, fazer manutenção, da depilação à remoção das cutículas, da limpeza profunda à correção funcional, mas sem exageros. As pessoas que tentam ser o que não são ou negar sua natureza original acabam gerando aberrações sendo o expoente contemporâneio mais famoso o caso do Michael Jackson. De tudo o que ele já passou, já sofreu, já se metamorfoseou, acho que o mais assustador, mais chocante, pelo menos para mim, foram aqueles mocassins pretos com meias brancas. Eu acho aquilo uma coisa hedionda. Aquilo sim, merece cirurgia. O resto, a gente apenas lamenta.

Claro, aqui estamos falando (eu estou, né?) apenas do plano estético. Recentemente, numa conversa com meu chefe, percebi a ligação entre a ‘estética’ e a ‘estática’. A beleza do espelho, a que chamamos estética é realmente uma beleza parada. A gente pensa nas medidas que gostaria de ter, altura, peso, cintura, busco, quadral, tornozelo e vê que são apenas números, grandezas. Carecem de movimento e até, de nexo. Porque muita gente pode até ter os números corretos e não ter um resultado agradável. E pode até mesmo, não ter saúde. A Saúde é muito diferente da busca estética, pois a saúde é dinâmica. A saúde é movimento. Você pode ter um corpo lindo e ter péssima saúde, especialmente se este corpo foi conquistado a poder de cigarro e jejum, por exemplo.

Um atleta não tem medo das calorias que come ele sabe que caloria é sim, energia. E que o corpo é um sistema complexo, que precisa de energia para gerar movimento. E que esse movimento é que não apenas delineia o corpo como azeita melhor a máquina.

A beleza, a estética, é estática. É parada, é sem vida. É uma…natureza morta. A saúde é dinâmica, é movimento, é longevidade em vida.

Eu, nunca fui bonita, nunca me destaquei por nenhum atributo físico, embora eu já tenha recebido muitos elogios a minhas pernas. Até hoje procuro conservá-las não apenas para a locomoção e alguns esportes como também tenho certo prazer esporádico em expô-las em público. Sei que não é nada de excepcional, sou baixinha, mas me permito essa brincadeira de vez em quando. Já assumi meu pequeno tamanho e quase nem sofro quando leio na revista que só de pernas a Luciana Gimenez tem 1,20. Cada um com sua história. Eu, continuo aqui, tentando decifrar a minha.

É por ter tanta dificuldade em saber direito quem eu sou que estou convencida da inutilidade que é julgar as outras pessoas. É inacreditável como cada um traz histórias impensáveis dentro si. Você olha o motorista de táxi, o guarda na esquina, a balconista na loja, o apresentador do telejornal na TV e não tem a mais remota idéia do que ele já viveu, do que ele já fez ou o que ainda poderá lhe ocorrer.

Outro dia, meu marido fez um programa de rádio sobre o dia dos pais e uma moça que participou ao vivo, contou uma história tão inimaginável que até ele fico passado. A moça ligou (eu não ouvi essa parte, ele me contou depois) e disse que quando era pequena, bem criança, com menos de cinco anos de idade, seu pai chegou em casa totalmente embriagado e começou a bater nela. A mãe, vendo aquele absurdo, um monstro bêbado batendo em sua filha pequena, avançou em cima do pai para impedí-lo. Ele então, não sei bem como, se com álcool e fósforo, ateou fogo na mãe. A mãe morreu queimada. Tá bom prá você ou vamos ao Capítulo II da Seção Infância Traumática? Tá bom, né. Pois isso não é ficção, é real e é somente uma gota num oceano de histórias tristes da existência humana. E olha que eu nem vou falar do Holocausto a maior de todas as tragédias sobre este planeta azul.

Pois é nesse mar de horrores e tragédias humanas, neste mesmo planeta em órbita regular em torno do sol, nessa contradição incompreensível que todos nós vivemos. Quem é que pode entender que o Sol, o nosso sol, sem o qual não existiríamos, essa fonte de luz e calor tão perfeita para a vida terrestre, é simplesmente uma estrelinha de quinta no universo? Uma estrela de quinta grandeza, que, num elenco de estrelas universais seria equivalente a …quem… uma Narjara Tureta? Ou no casting de jurados cantores seria assim… a Flôr? O Nahim? Não sei, não quero comparar, não quero ofender nenhum ser humano ou corpo celeste. Apenas estou brincando com os nomes. Narjara Tureta é um nome imbatível pra fazer humor, muito bom.

E se o sol é assim tão insignificante, se a Via Láctea não dá nem pro cheiro, então, como é que só há vida na Terra? Ou haverá vida em outro lugar? E se houver, onde? E se houver e soubermos onde, por que eles não passam aqui pra fazer uma visitinha? Ou será que eles passam e a gente é que não vê? Ou vê?

Como você percebe, as dúvidas são muitas, a vida é curta. So much to do, so little time. E o time de cada um, não dá pra saber, não dá pra prever. E é esta a razão básica para que a gente não queria ser ninguém além de nós mesmos. Imagine quantas mulheres desejaram ser Marilyn Monroe quando ela estava no auge. Imaginem o alívio que todas elas sentiram por não serem Marilyn Monroe quando a verdadeira se foi.

Mas as pessoas continuam sentindo o desejo de serem como as outras, especialmente, quando encontram um modelo ideal como habitação, digamos, como Gisele Bündchen. Fico pensando o que aconteceria se a clonagem já fosse uma técnica dominada, banal como VHS ou o CD Player. Quantas mulheres, se pudessem fariam a opção de terem a aparência da Gisele? Quantas escolheriam outras modelos, atrizes, cantoras? Quantas pessoas ficariam com a opção de serem o que são?

Uma coisa eu digo: eu ficaria comigo mesmo. Apesar de tudo, apesar dos pesares, juro. Não é nem por acreditar no projeto só, não, mas porque eu detesto perder o fim de qualquer filme, do melhor ao pior do mundo. Simplesmente, depois que eu decido acompanhar o roteiro, o enredo, eu faço questão de conhecer o desfecho. Aos 44 anos, já me acostumei com toda a história da minha vida, peguei amor pelos personagens e quero acompanhar tudo bem de perto até o capítulo final. Não quero ser outro alguém, não quero abrir mão do meu cargo, não quero passar o cetro, não troco de lugar nem por um decreto lei. Imagine, de jeito nenhum que eu vou deixar alguém dormir na minha cama, ao lado do meu marido, sob o meu edredon e dentro do meu pijama de ursinho. Nem pensar. Nem por todos os lençóis de algodão iraniano, nem por todos os cobertores de lã da escócia, nem por todos os pijamas de flanela inglêsa, nem por todos os maridos italianos, nem por todas os colchões da hotelaria suiça.

E depois, seria horrível acordar outra pessoa e ter que usar uma escova de dentes que não a minha.

Aceitar ser quem se é tem uma consequência imediata maravilhosa: a gente vai vivendo, vai aprendendo, vai melhorando. O progresso pessoal é uma vitória deliciosa, nos mínimos detalhes. Mesmo com a decrepitude da velhice, uma dor aqui, uma manchinha na pele ali, é inegável a beleza do conhecimento acumulado. É verdade, às vezes vem uma bela de uma senilidade precoce, uma amnésia e apaga tudo, mas tirando esses casos de exceção, é uma coisa linda começar a entender as coisas por acúmulo de aprendizado.

Sinto isso no meu tricô. Hoje, eu domino a técnica, sinto-me a rainha das agulhas compridas. Tenho mais horas-carreira com minhas agulhas do que muito piloto da aviação de carreira tem de vôo. Sei a postura, a tensão exata pra segurar o fio, como fazer com que o tecido tricotado tenha uma aparência serena e uma textura maleável. Meu arremate é preciso, nem frouxo nem apertado demais. Sei reparar qualquer erro cometido e se preciso for, desmancho tudo e recomeço o trabalho.

Agora, por exemplo. Suponho ter terminado este capítulo. Assim, vou parar de escrever, colocar a página no ar e vou fazer outra coisa. Se, mais tarde, ou em outro momento, eu reler o texto e achar que não ficou bom, posso mudar tudo, apagar tudo, posso esquecer o que dito. Posso negar, posso me arrepender ou posso redizer tudo de novo, acrescentando ainda outras coisas. Quem vai saber o que virá?

Capítulo 09 – escrevo, logo,existo. até o cap. 12

Minha memória é muito confusa. Quando eu lembro o que, esqueço o quando; quando me lembro quem esqueço onde. Não me pergunte por quê.

Isso faz com que cada reencontro com pessoas do passado seja um momento de desconforto, porque nunca me lembro o nome da pessoa, de onde a conheço ou o que ela faz. É ridículo dizer mas é como se a cada manhã que eu acordasse eu estivesse não num outro capítulo mas num outro livro!

Por tudo isso não sei dizer em que ano comecei a escrever pra valer mas tenho certeza antes de começar a escrever eu aprendi a gostar de ler.

Como diz a letra de Caetano na música Livros, Tropeçavas nos astros desastrada

Quase não tínhamos livros em casa.

Assim, eu lia alguns livros do meu avô, de autores como AJ Cronin, ou o que aparecia via minha irmã, como os poemas de J. G. de Araújo Jorge, famosos nos anos 60, todos os romances de José Mauro de Vasconcelos, o nosso Paulo Coelho da época. Todos encontráveis na Web de hoje.

Lendo tanta porcaria eu só podia dar no que dei.

E por ler tanta coisa romântica e sentimental, eu ficava com a impressão de que escrever era sofrer e por isso eu escrevia as mesmas bobagens.

Cometi alguns poemas, dos mais venezuelanos aos filhotes de Décio-Haroldo-Augusto. Já tentei fazer alguns haikais, sem sucesso.

Não sei se já escrevi sobre esses poemas antes, nesse mesmo livro, mas lembro que eu já avisei que sou esquecida no começo deste capítulo. Talvez eu esteja melhorando, vai saber.

Uma vez um poema me acometeu logo depois uma quase-colisão frontal entre meu carro, saindo do analista e um carro na contra-mão numa rua estreita de mão única, isso já nos anos 80.

Chegou assim,mais ou menos, recriado agora:

Eu ía na minha,

Ele vinha na dele,

ele na contra

eu na mão.

Até que então

quase!

Ufa, não!

Frente a frente animais iguais

mostram dentes

Bons sinais.

Trocamos sorrisos,

Nada mais.

Nessa mesma década de 80, segunda metade, um poema concreto e minimalista me agarrou no meio do mato em que eu andava, ouvindo o som da água borbulhando ao longe e pensando…

riacho

acho

Ok, eu já fiz coisas melhores e também piores. Quem quiser arriscar, poderá ler alguns, gentilmente publicados no site CantinhoDoSala.

Mesmo sem entender nada do mundo e da vida, eu tinha consciência de que algumas coisas eram absurdas. Lembro de um diário onde colei uma notícia horrível do assassinato de Sharon Tate, mulher de Roman Polanski, que foi assassinada aos 26 anos, no 8o.mes de gravidez, por um louco , Charles Mason, junto com outras 4 pessoas. Isso foi em 69.

Além do crime pessoal, nessa mesma época, eu escrevia neste mesmo diário que se eu pudesse ter um único desejo realizado naquele dia seria para que a guerra do Vietnã acabasse… E pensar que o presidente Bill Clinton acabou de visitar o Vietnã, 25 anos depois do fim da guerra. Entre 69 e 75 muita gente ainda morreria sem que eu pudesse avaliar.

No começo dos anos 70 fui morar no Canadá e interrompi meu hábito de escrever para viver uma nova vida, em outra língua, num outro mundo. Em pouco tempo em já conseguia escrever bem em inglês, fazer piadas e brincar com as palavras.

Assim que voltei ao Brasil descobri esse seria o meu caminho natural, tão integrado a minha vida que eu nem percebia sua importância.

Muita gente guardava as cartas que eu escrevia, meus amigos ficavam emocionados até com as mensagens mais simples de cartões de aniversário ou de fim de ano.

Acontece que no mundo alfanumérico em que vivemos, também os números me interessavam muito. Eu não sabia como optar entre as ciências ligadas à matemática e à literatura. Tudo era bom, tudo era interessante. Acho que por isso acabei estudando Física, porque é algo entre a filosofia e as ciências exatas.

Mesmo na Física eu escrevia. Eu escrevi a letra do samba que representava o Instituto de Física da USP para os estudantes da segunda metade dos anos 70. Tinha a mesma proposta das letras mnemônicas dos cursinhos, sem que eu soubesse disso. As frases tinham fórmulas nas frases, um amontoado de bobagens, mas os alunos gostavam. virou um hino da física daquela época. Quem quiser expiar pode clicar aqui; os sensatos prosseguirão.

Tive que fazer muitos textos chatos para sobreviver, como traduções técnicas do inglês para o português. Eu já traduzi textos sobre armazenagem de grãos em navios, parafusos das plataformas de petróleo em alto mar, letras de músicas. Traduzi artigos internacionais para o jornal O Estado de São Paulo em máquina de escrever mecânica, na calada da noite. Levei muitos anos trabalhando em 3, 4 e até 6 empregos ao mesmo tempo, sempre escrevendo, criando, fazendo piadas, até conquistar o direito e o saldo suficientes para poder escrever o que eu bem entendo. Como o leitor bem sabe, já paguei todos os tipos de preço pelo que escrevo também. Não me arrependo de nenhuma prosa que escrevi, só de alguns versos. Poesia, quando dá de ser ruim, sai da frente.

Escrever dá trabalho. Cansa. Demora. Evidentemente qualquer estivador vai achar isso uma solene viadagem, assim como carvoeiros, pedreiros, faxineiros, motoristas de ônibus e todas as demais profissões que exaurem fisicamente qualquer um que a pratique.

A diferença é que nem todo mundo se acha capaz de ser lixeiro e correr 40 quilômetros por dia, mas todo mundo acha que pode escrever. Poder, pode tudo. Uma coisa, porém,é escrever de vez em quando, sem compromisso, particularmente. Outra coisa é escrever durante 30 anos todos os dias, profissional e publicamente.

Eu não imaginava que viveria disso, mas quando tirava dez nas redações e representei meu colégio numa olimpíada de redações para escolas públicas de São Paulo, comecei a acreditar que havia alto no que eu produzia com a caneta e o papel.

Acontece que eu era teimosa, metida, arrogante, males que até hoje me perseguem e dos quais tento correr quando não estou com muita preguiça.

Foi a capacidade de escrever que me salvou quando decidi não fazer doutoramento em física e dedicar-me a outra coisa qualquer. Passei a escrever e nunca mais deixei de praticar este esporte.

Como diria aquele português bem sucedido com seu bordel de três andares com viados no térreo, putas velhas no mezanino e putas novas na coberta, no começo foi difícil: era eu, minha esposa e minha filha a trabalhaire. Por melhor que se escreva, cada texto tem sua técnica, seu estilo e a gente não aprende essas coisas do dia pra noite e muito menos na faculdade de comunicação ou jornalismo.

Quando entrei para a televisão como roteirista, em 83, eu não sabia o que estava fazendo. Mas peguei um roteiro pronto e comecei a copiar sua estrutura. As páginas divididas em duas colunas, com as indicações técnicas na esquerda e o texto falado na direita. Aprendi depois que o termo para essas indicações é ‘rubrica’. Vinhetas de ida e volta, aplausos do auditório, música de fundo, nomes das pessoas e demais informações para que o operador do Gerador de Caracteres coloque tudo no vídeo.

Um roteiro de televisão é uma mistura de texto técnico com a parte artística. A produção faz cópias e mais cópias e distribui para todo mundo da técnica, produção, controle, etc. Dá uma sensação muito grande de responsabilidade pois seus erros serão vistos e comentados por todos os profissionais envolvidos.

Aqui começa uma jornada tão longa que eu acho melhor começar um capítulo novo, o capítulo dez, com todo ar solene que um número redondo e básico como este merece.

Capítulo 10- tubo de raios catódicos

Como entrei para a televisão? Muita gente já me perguntou isso não tanto por interesse em relação a minha história mas sim pela vontade de descobrir uma porta de entrada pela qual a pessoa também possa pertencer a este mundo tão desejado, o da fama nacional.

Entrei para a televisão por acaso. Por alguma razão inexplicável Deus parece gostar de dar as coisas a quem não pede e dificultar o caminho pra quem procura.

Em 82 eu trabalhava numa produtora composta por duas empresas a RMC Comunicação, do jornalista e empresário Roberto Muylaert e a Editevê, do publicitário e hoje presidente da NewCommBates, Walter Longo. A Editevê e a RMC foram contratadas para produzir o novo programa do Clodovil para a rede Bandeirantes. Não era só outro milênio era outra mentalidade. A Aids mal tinha surgido no Brasil e um dos primeiros convidados, o Marquito, já estava doente e viria a ser uma das primeiras vítimas fatais pouco tempo depois.

Comecei a freqüentar as reuniões na TV Bandeirantes e não fazia idéia de onde estava ou de quem eram as pessoas que estavam ao meu redor. Pouco tempo depois eu saberia que eram pessoas importantes no mundo da televisão, como Maurício Sherman, Roberto Talma, o cenógrafo Cyro del Nero, entre tantos outros. A secretária do Sherman e da produção era simplesmente, uma maranhense chamada… Marlene Mattos.

Por não ter nenhum compromisso com o ambiente, eu dizia o que pensava e dava meus palpites. As pessoas achavam graça em tudo que eu dizia. Eu tinha 25 anos e era muito esperta e a impressão que as pessoas tinham sobre a minha cabeça era a mesma que as pessoas tem do corpo da Luize Altenhoff… Claro que eu trocaria meu Q.I. pelas medidas da moça, mas ninguém pediu minha opinião. Cada um nasce de um jeito e pronto.

Um dia, o Sherman disse que eu deveria ficar trabalhando na tv e não na produtora. Me fez uma proposta salarial impressionante para uma principiante. Eu não sabia que ganhava tão mal, embora eu tivesse uma vaga idéia pelo padrão de vida de classe pobre alta que eu levava. O salário inicial era, simplesmente, 3 vezes o que eu ganhava na RMC Editevê. E, claro, eu disse, sim.

Se eu soubesse o que era trabalhar com o Clodovil, talvez eu tivesse dito não, mas como eu disse, eu não sabia de nada de nada.

Para você fazer uma idéia, isso era o final de março de 83. Eu tinha me casado, na igreja, no cartório, no começo de março. E vinte e nove dias depois, por causa de uma paixão instantânea na tv, estaria separada.

Quando meu álbum de fotos do casamento ficou pronto, eu já estava morando em outra casa, com outro homem e entrando no meu segundo casamento.

Meu marido odeia que eu conte publicamente esses fatos. Ele é o grande amor da minha vida, o homem com que viverei eternamente. Mas não posso negar tudo o que fui ou fiz e se eu o encontrei e sou feliz, devo confessar que o método usado foi o da tentativa e erro. Para amenizar, eu casei oficialmente duas vezes, no cartório. Mas como eu tenho um filho com um terceiro marido com quem não casei, acho que devo contabilizar todos. Diante do tribunal, eu teria que dizer que embora este seja o verdadeiro e definitivo, este é meu quinto casamento.

Se os pedidos forem muitos, posso abrir um capítulo especial para este tema, mas só se a pressão for insuportável. Já contei isso várias vezes, uma vez até na TV e o Isaac ficou muito P. da vida comigo. Em compensação, a audiência da Silvio Poppovic aumentou bastante.

Trabalhar com o Clodovil era difícil. Inacreditavelmente, eu viria a trabalhar com ele em outras duas ocasiões. O cenário era transbundante, com uma escadaria majestosa e centenas de luzes sob os degraus, a mesa tinha luzes embaixo. As gravações eram intermináveis, dez, doze horas. Os câmeras e todos os profissionais da técnica, tinham que usar um uniforme desenhado por Clodovil, com sua griffe. Muitas vezes fui posta para fora do estúdio. Mas deixa pra lá, vai ver a culpa era minha mesmo.

O programa estreou com um pico de audiência de 24 pontos. Todos celebraram, foi um sucesso. Mas televisão é uma coisa instável e o programa logo saiu do ar.

Eu, fiquei. Era roteirista, trabalhava muito, tinha idéias, estava cheia de energia e todos gostavam de mim. Assim, fui ser roteirista do J.Silvestre, que tinha dois programas na Band, o “Essas Mulheres Maravilhosas” e o “Programa J. Silvestre”.

Eu escrevia os dois. E todas as semanas, passava duas noites em claro, de domingo pra segunda e de segunda pra terça. Eu só dormia mesmo na quarta feira `a noite.

Além desse emprego, eu também escrevia todo o jornalismo da rede Antena 1 de rádio. Às cinco da manhã eu comprava todos os jornais na banca, lia tudo, selecionava as notas, e fazia cinqüenta e dois textos curtos e divertido misturando humor e notícia. Até hoje faço isso no Farofa. Eram umas 15, 20 laudas por manhã, que um boy da rádio vinha buscar , copiava e mandava para as 8 emissoras da Rede. O salário era ridículo, mas eu precisava de todas as migalhas.

Os dois programas eram ao vivo e a gente tinha que trabalhar o dia todo, escrever todo o roteiro e à noite, estar junto na gravação. O diretor do J. Silvestre era o João Lorêdo, grande diretor de televisão, irmão do Jorge Loredo, o Zé Bonitinho. Em 2000, João Lorêdo escreveu um livro sobre Tv, o primeiro de uma série, segundo ele mesmo disse. Que Deus lhe dê longa vida.

“Essas mulheres maravilhosas” era um show, com produção pra valer. Não é como esses programas que só levam o pessoal que está com ‘música de trabalho’ e circulam com seus assessores em todos os canais. Os convidados eram selecionados com critério, e as costureiras faziam o figurino de todo o ‘balé’. Sim, o programa era ao vivo, tinha orquestra, maestro (Carlinhos e depois, o Briamonte) , corpo de baile, figurinos. Era um show de verdade. E tudo funcionava.

Foi num desses programas que a então Maria da Graça Meneghel foi contar ao Jota sobre seu namorado, o Pelé. E aí, ela conheceu a Marlene Mattos. Eu vi esse caso nascer, bem ao meu lado.

O outro programa, o “Programa J. Silvestre”, tinha aquele famoso quadro do “Céu é o Limite” e o “Esta é sua Vida.”. Eu escrevi muitos, muitos desses quadros, e acredite, é um pé no saco. Muito difícil mesmo. Por quê? Porque você tem que conhecer toda a vida do entrevistado e redigir uma história emocionante, que consiga contar todos os pedaços relevantes, de acordo com os convidados que aceitara participar! E aí, se a professora ou os colegas de classe do artista não viessem, como é que você ía enfiar a vida escolar dele, sem nenhum representante?

Era uma loucura. As pessoas confirmavam e desconfirmavam a todo instante e eu tinha que mudar o texto. Nota: não tinha computador. Era máquina de escrever, com tipos grandes e pesados, mecânica, e dá-lhe tinta branca e correto carbex pra mudar tudo.

Felizmente, o pequeno apartamento onde eu morava, que nem era meu, tinha um toque de modernidade para a época: secretária eletrônica.

Lá eu pegava os incessantes recados de gente que ía e vinha e mudava todo o meu roteiro.

Sem dormir, às 8 da manhã, o texto estava pronto para ser levado para a emissora. E aí, tinha que passar pela aprovação do apresentador.

Teve um dia que o texto ficou uma M. E o Jota ficou P. Faltavam 5 horas pra o programa e eu disse a ele que poderia fazer todo o texto rimado, como literatura de cordel, já que o convidado era pernambucano. Ele disse que eu jamais conseguiria. Eu pedi pra tentar.

Escrevi tudo. Ficou lindo, uma obraprima. Ele adorou. Foi ao ar e foi um sucesso. TV tem esses momentos bacanas.

Tive outro. Logo no começo do meu trabalho como J. eu tive que fazer um texto em off para uma campeã paraolímpica de natação. A menina não tinha as duas pernas. E o vídeo mostrava-a atravessando uma piscina de 50 metros só com braçadas.

Fiz um texto muito emotivo. Jota leu. O povo ficou emocionado. Choveram telefonemas com doações pra ela. Até um apartamento ela ganhou, fora o dinheiro. Nesse dia, senti o peso do texto, da emoção, da leitura, da música e o resultado que causam no ímpeto da generosidade do telespectador. Se o texto fosse ruim, ou mal interpretado, ela não receberia nada. Mas foi bom e ela ganhou uma super grana.

O pior estaria por vir. Um produtor, que era manco de uma das pernas, roubou todo o dinheiro da menina sem pernas e fugiu. Eu aprendi a escrever melhor e desconfiar até da minha sombra. Em Tv, ninguém é bonzinho. E os que são, disfarçam, pra não assustar os outros.

Depois da Bandeirantes eu comecei aquela roda vida dos profissionais de TV. Trabalhei em todas as emissoras. No SBT, duas vezes, como redatora do Moacir Franco, no programa “A mulher faz o show” e no “Viva a Noite”. Eu era a redatora do Gugu. Ele gostava muito de mim e em várias outras ocasiões, trabalhei com ele. Ele chegou a comprar um horário na Rede Record, nos final dos anos 80 e me deu o programa para dirigir, o “Casa Mágica”, apresentado por Silvinha, então sua secretária de palco e o Allan, do então Polegar.

Na Gazeta, fui redatora do Beto Rivera no Clip Trip.

Na Manchete, escrevi para o Osmar Santos, no Osmar Santos Show, dirigido por Nilton Travesso.

Na Globo, fui redatora do Faustão, logo no começo do programa, fui colaboradora do Cassiano Gabus Mendes na novela das 8, Champagne, e nos anos 90, fui redatora do Sai de Baixo, pelo núcleo de São Paulo, dirigido por Flávio de Souza, meu amigo.

Trabalhei 8 anos na TV Cultura no departamento infanto juvenil. Escrevi o Glub Glub, o Revistinha, o X-Tudo durante anos, entre outros programas.

Fui diretora da Rede Mulher, criei e apresentei o Via Satélite durante anos, fui apresentadora do Fala,Brasil na Rede Record.

Fui roteirista do Telecurso 2o Grau na Fundação Roberto Marinho.

Mas quero falar da experiência de escrever novela. Não sei porque até hoje não me contrataram como autora de novelas, mas entendi por que é tão difícil entrar.

Na época, meu então marido, o segundo, Luciano Ramos, tinha ótimas relações com a Rede Globo. Ele já havia trabalhado com o Avancini na séria Avenida Paulista e chefiava os roteiristas.

Ele soube, por alguém da agência da Globo, a house deles, que estavam procurando um colaborador para a novela das 8. Havia um teste.

Luciano então, pediu para que eu escrevesse uma cena com mulheres. Escrevi. Ficou muito legal, tinha um bom movimento de cena, diálogos divertidos. A cena iria ao ar tempos depois, com três mulheres na sauna.

O texto foi aprovado e fomos ao Rio de Janeiro fechar contrato com a Globo com o Mario Lucio Vaz. Abrimos uma empresa de textos, a extinta Verso & Prosa. E, como ele viria a demonstrar mais tarde, sua ambição pessoal era maior do que sua solidariedade e vontade de ser verdadeiro. Aprovado o meu texto, ele combinou que…só o nome dele apareceria nos créditos como colaborador do Cassiano Gabus Mendes.

Eu, idiota, deslumbrada com a oportunidade, nem reclamei.

Escrevíamos um ou dois capítulos por semana. Toda sexta-feira, íamos ao apartamento do Cassiano para pegar o ‘menu’ do capítulo.

Era divertido e senti o poder da produção da Globo. Nunca vou esquecer de uma cena que criei para a Lúcia Veríssimo e o seu namorado, esqueci quem era agora, não sei se era o Irwing São Paulo, ou alguém parecido com o Marcos Palmeira. A indicação era de que a personagem da Lúcia estava em dúvida entre ficar com seu verdadeiro amor pobre, Tony Ramos ou ficar com o moço rico que queria casar com ela.

Imaginei a Lucia deitada no convés de um lindo barco. O namorado ía mergulhar e ela ficava tomando sol e sonhando acordada. Lembrava dos beijos do Tony Ramos, sonhando. Até ser subitamente acordada dos sonhos pela realidade, quando seu namorado saía da água e subia no barco, assustando-a.

Essa era a decisão: sonhar acordada com um amor verdadeiro e sem perspectiva ou ficar com aquele moço rico, que lhe prometia viagens pelo mundo e uma vida de sonhos…

Um mês depois, vejo a cena na TV: um super barco em Angra dos Reis, super produção para a cena, super direção. Levei um susto e vi que a produção da Globo é muito maior do que o que a gente põe no sulfite.

Cassiano gostava do nosso trabalho, mas usava nossos textos para treinar seu próximo colaborador. Ele já tinha um amigo que o ajudava, o Luis Carlos Fusco e ele acabou ficando com o trabalho seguinte.

Como free lance, Cassiano me deu uma tarefa que hoje não seria capaz de fazer. Mas na época, fui.

Um sabão em pó, decidiu produzir livros de cem páginas com versões romanceadas e condensadas de várias novelas de Cassiano, como as Locomotivas e outras mais.

Fui escalada para fazer o romance resumido. E de repente, entregaram na minha casa, pilhas imensas com mais de 150 capítulos para eu ler tudo e…transformar em 100 páginas de romance.

Construí uma carpintaria digna de James Joyce para fazer Ulysses, que se passa em um dia. E os livros saíram. Lembro do meu orgulho ao passar com o carrinho no supermercado e ver meus textos condensados em romances encartados nas caixas de sabão em pó. Sem meu nome, claro, era trabalho de ghost.

Essa é uma das agruras de quem escreve. Poucas vezes a gente pode assinar ou contar a autoria. Em geral, escrevemos, recebemos e pronto. Não tem marketing pessoal, é só prestação de serviço.

Nunca redigi uma bula de remédio mas deve ter sido uma das poucas tarefas que não passaram pela minha vida de escriba. Escrevo rápido, teclo bem, graças a uma caso do destino. Quando eu tinha 12 anos e fui morar no Canadá a datilografia era matéria obrigatória das escolas públicas do país e desde então nunca mais tirei as mãos do teclado, exceto para fazer tricô, crochê e sexo.

Fiz coisas maravilhosas e abomináveis sendo que uma das piores foi uma série de apostilas de parapsicologia para um dos muitos picaretas que rolam soltos por aí. A missão era reescrever e transformar em algo decente uma série de textos amadores do punho do próprio parapsicólogo que não sabia nem falar português direito, quanto mais escrever. Eu interferia tanto no que estava escrito, mudava tanto a gramática, os substantivos e até o conteúdo, que acredito ter contribuído em muito para a moderna parapsicologia nacional. Ou para sua destruição.

Eu mesma tinha esquecido mas outro dia, numa conversa, lembrei de um trabalho que eu fazia em priscas eras, para um programa de rádio do Gugu Liberato, numa rádio AM bem popular, cujo nome nem me lembro. O quadro tinha um nome piegas, um tema piegas e por mais inacreditável que pareça, nunca me saí tão bem num trabalho. Chamava-se “Cartas à mãe”. Eu escolhia o tema, o assunto e fazia a carta do jeito que eu bem entendia. Era sempre um filho, uma filha, mandando uma carta emocionada à mãe, com uma confissão, um alento, uma queixa. Escrevi para mães jovens e velhas, presentes e ausentes, vivas e mortas. Eu me lembro de muitas cartas, embora não tenha registro de nada, porque o texto vinha sempre a partir de uma cena cinematográfica na minha cabeça.

Lembro-me de uma em especial, que tratava do tema filho adotivo. A cena começava com um rapaz, que aos 18 aos descobre através de um parente, que é filho adotivo. Foi adotado quando bebê e nunca conheceu sua mãe biológica. Isso acontece o tempo todo no mundo e, em geral, o jovem fica revoltado, sente-se enganado e quer conhecer sua história verdadeira. Mas esse rapaz tinha uma relação com sua mãe que poderia ser resumida em quatro letras: amor. Aquele amor verdadeiro que tem o desprendimento suficiente para pensar não só em si, mas no ser amado, mesmo em momentos de grande intensidade como este.

O rapaz então, escrevia uma carta e deixava-a sobre a mesa da cozinha antes de ir para o trabalho bem cedo, para que sua mãe a encontrasse quando chegasse do emprego. Era mais ou menos assim:

Querida mãe,

Espero não ter assustado você com essa carta sobre a mesa. O coração da gente sempre fica sobressaltado quanto recebe uma carta inesperada. Mas fique tranqüila, está tudo bem.

Estou escrevendo porque a carta tem um poder diferente de uma conversa. A conversa, acontece entre duas pessoas, no mesmo lugar e no mesmo momento. A carta acontece em momentos diferentes, lugares diferentes e por isso, a pessoa que escreve e a pessoa que lê têm tempo para pensar e compreender melhor as coisas.

Sou um homem feito, mãe, um rapaz de dezoito anos. Trabalho o dia todo, estudo à noite e a cada dia sinto-me mais forte e mais preparado para o futuro. Sei que você sente orgulho das minhas boas notas e diz pra todo mundo que sou o melhor filho do mundo. Eu sempre brinco com você dizendo que você só fala isso porque eu sou seu filho único e assim, você não tem ninguém melhor pra comparar. Mas é só uma brincadeira, eu sei que você me ama de verdade.

Sempre fomos muito apegados mãe, mas um rapaz cresce e vai ficando um pouco mais longe de sua mãe. Hoje, nos vemos pouco. Trabalho o dia todo, estudo à noite, jogo bola no fim de semana, saio com os amigos e já não nos vemos tanto como antigamente.

Mas ainda percebo seu afeto em tudo o que você faz por mim. No botão da camisa que cai e aparece novamente como que por mágica. Na mesa posta que encontro quando volto de madrugada e a comida fresca no fogão. No tênis lavado e secado ao sol e no seu rosto atrás da cortina da janela a espreitar minha chegada.

Você faz isso tudo por mim há dezoito anos, mãe, sem nada pedir em troca.

Mas hoje, é a minha vez de fazer desses pequenos milagres por você. Hoje, eu quero liberar seu coração de um fantasma antigo, de um medo tão velho, que já pode descansar para sempre…

É verdade, mãe, o dia que você tanto temia, aconteceu: eu sei que sou seu filho adotivo.

Ao dizer isso, meu coração fica apertado só de pensar que você pode estar chorando, mas por favor, mãe, avise essas lágrimas que elas são de alegria, de alívio. A dor acabou. O medo acabou. Não há mais riscos, mãe. Eu sou seu filho, seu único e verdadeiro filho e ninguém poderá tirar isso de mim.

Não importa quem me gerou, como me gerou, isso não faz a menor diferença. Porque minha vida começou no dia em que você me pegou em seus braços. Neste dia, você imaginava que estava adotando um bebê, mas era eu que estava ganhando uma mãe.

A mais maravilhosa, corajosa, a mais forte mãe do mundo. Uma mulher que tem o dom mais divino deste universo, o dom do amor verdadeiro. Aquele que não pede nada. Que corre todos os riscos.

Os riscos se foram, mãe. Se um dia, ou se em mil dias, você teve medo da minha revolta quando eu descobrisse esse fato, se um dia ou se em mil dias você pensou em me contar e voltou atrás, tudo isso acabou hoje.

Por isso, vamos seguir nossa vida como sempre foi. Hoje à noite, quando eu chegar da escola, quero encontrar o meu prato no mesmo lugar na mesa, com o garfo grande que eu gosto e com a faca ao lado, como um ponto de exclamação, feliz com minha chegada.

Não é preciso mudar nada, porque não há o que mudar no afeto verdadeiro. A única coisa que muda é que o seu coração já pode ficar tranqüilo. Não há mais nada a temer, não há segredo a manter.

E não fique preocupada agora que você já sabe que eu sei, se eu vou querer procurar a mãe que me pôs no mundo. Eu tenho você, mãe, a única mãe do mundo pra mim, a única que conseguiu, durante 18 anos de amor, conquistar o direito de ser, a minha mãe, verdadeira.

Um beijo do seu filho, para sempre,

Antonio.



Capítulo 11- Como, logo, não resisto!

Hoje de manhã acordei morrendo de fome, aquela fome de lua-de-mel, de férias na praia, de pré-adolescente em crescimento. Fui para a mesa do café da manhã e encontrei lá, a minha ração diário de dieta: meio mamão papaya-mirim, do tamanho de uma noz, uma xícara de chá sem açúcar e uma fatia de pão preto com grãos, torrada e recoberta por uma fina camada de ar.

Para fazer o café franciscano render, comi o mamão com uma colherinha de mexer cafezinho, bem pequena, assim, fiquei com a sensação de que o mamão era maior e gastei algumas calorias na luta contra a fruta. Depois, sorvi o chá em micro-goles enquanto comia ‘a’ fatia de pão, molécula por molécula.

Não estranhem se eu estiver de mau humor a essas horas, mesmo porque não foi o primeiro dia. Foi o vigésimo quarto, comendo esta mesma coisa. Minto, em geral como meia grapefruit azeda no lugar do mamão.

E por que faço isso? Porque me odeio? Porque estou fazendo um ‘No Limite’ na minha casa? Não. Faço isso porque estou na minha nonagésima nona tentativa de emagrecer, o nonagésimo nono regime, dieta ou sacrifício.

Isso não seria nada se o cardápio para o almoço não fosse apenas e tão somente-só, uma saladinha de atum de lata com cebola. E nada mais.

Quem tem mãe gorducha, avó gorducha, parentes gorduchos, e uma tendência hereditária ao acúmulo de gordura sabe do que estou falando. Sou daquelas pessoas que tem dois problemas em relação ao corpo: facilidade de engordar e dificuldade de emagrecer.

Faço esporte sempre que posso e, neste exato momento em que escrevo, estou pensando em correio meia horinha ou fazer uma bicicleta ergométrica que está lá, magra e ereta me esperando na sala. Mesmo assim, queimo calorias com grande dificuldade.

Mas essa não é a regra da minha família. Tenho uma prima que sempre foi magra e come como uma louca. Sempre morri de inveja de gente que come o que quer e fica magro. Se um dia houver um progresso verdadeiro na ciência, será esse, o de poder comer com prazer, sem excessos, mas sem engordar. Hoje, que acostumei meu organismo a uma dieta espartana, se eu olhar para uma torta de chocolate, a menina do meu olho engorda!

Achei que eu não tinha mais força de vontade para passar pelas privações que estou passando. Não acreditava mais que eu fosse capaz. Surpreendentemente, estou conseguindo e já perdi 5 quilos, sem remédio, só na dieta alimentar.

Para conseguir seguir o cardápio tenho que fazer certos malabarismos horrorosos. Na segunda feira, levei uns frios de peito de peru para a lanchonete do prédio onde trabalho e, como uma traficante de mortadela, passei os frios pra gerente enfiar na salada que eles servem, sem constranger os clientes. Melhor ainda é lavar o tupperware com sabonete líquido no banheiro da empresa. Lindo, lindo.

Numa quarta-feira, a coisa pegou mais pesado. Era dia de almoçar dois ovos cozidos com salada de tomate, olha que apetitoso. Ah, e uma fatia de pão preto com grãos. Tive que cozinhar os ovos logo cedo, pra preparar a marmita no tupperware. Botei tudo numa sacola térmica, levei para o trabalho e guardei na geladeira. Nesse dia, eu tinha que participar do programa Mulheres, na Rede Gazeta, e quando saí da reunião o carro da emissora já estava me esperando na frente do prédio. Não tive dúvidas, peguei a minha sacola e entrei no carro.

Avisei o motorista que eu estava de dieta e se ele não se importasse, eu almoçaria no carro. Gentilmente ele disse que não havia problema. Havia, ele é que não sabia o que estava por vir. Eram quase 2 da tarde. Quando eu tirei a tampa do tupperware -bomba contendo dois ovos, cozidos ás 8 da manhã, uma nuvem de gás sulfídrico tomou conta do carro, do ar condicionado, e por um minuto não conseguimos nem respirar. Para não levantar suspeitas sobre a minha idoneidade e conduta gástrica, avisei que meu almoço eram dois ovos cozidos. Fui comendo os tomates, as gemas, o pão enquanto tentávamos dissolver o mal-estar. Sobrevivemos, ambos, mesmo porque ele não tinha que comer salada de atum à noite.

A parte boa é que está funcionando, a parte ruim é que eu estou sofrendo. Na agência onde trabalho, as reuniões são acompanhadas de uma linda bandeja de bolachinhas doces e salgadas que a Lú gentilmente traz para a sala. Em geral, tem café e água e às vezes, suco. Em alguns casos, tem pão de queijo e no final da tarde não é raro ter pipoca. Por sorte, não ligo pra pipoca e suco, mas eu sou chegada numa bolachinha de aveia.

Foi ela que me fez balançar essa semana. Lá estávamos nós, na reunião, meus colegas, meu chefe, minhas bolachas. Ato falho, As bolachas. Todo mundo comia normalmente e eu, ali, olhando a bolacha de aveia e pensando comigo mesma:

-“Pra que eu vou comer essa bolacha? Uma bolacha não vai resolver meu problema. Talvez, umas vinte bolachas, mas uma, não adianta nada. Uma bolacha não mata a vontade e nem a fome, nem sacia a libido. Claro, também não vai engordar, mas vai impedir que eu continue dizendo que estou seguindo a dieta à risca e não como nada fora das refeições. Eu até poderia ter comido a bolacha se eu fosse capaz de comer uma só. Depois que eu comesse a primeira, ía me sentir derrotada pela bolacha e ía comer todas as outras que ficaram como testemunhas.

Além das bolachas, adoro pão, adoro bala, especialmente as mastigáveis. Mas não sou uma pessoa louca por comida, só por guloseimas. Não ligo pra chocolate, não como sorvete porque não gosto. Mas fico babando diante de um saquinho de ursinhos Gummy Bears da Haribo. Aliás, eu adoro tudo da Haribo. E aqui, Freud explica. Começou na primeira infância. Venho de uma família alemã por parte do meu pai, imigrantes fugidos da primeira guerra, que começaram como todos, com uma mão na frente e outra atrás. Para trabalhar, meus avós logo tiraram as mãos da frente e fizeram dois filhos, entre eles, meu pai. Foram morar numa comidade alemã no bairro de nome Picanço, muito sugestido considerando-se o tema reprodutivo, no município de Guarulhos. Vida dura, de muito trabalho e pouco dinheiro. Porém, devido aos laços com a alemanha, de vez em quando alguém, uma prima rima, um tio abastado, trazia de presente para as quatro netas, entre elas eu, um saquinho de ursinhos da Haribo. Eu não sabia a marca na época, mas como os ursinhos eram divididos um a um, e guardados no cofre para serem comidos com parcimônia, eles viraram um objeto de desejo infantil.

Hoje, vou ao supermercado e quando passo diante dos produtos da Haribo, sinto-me compelida a comprar absolutamente todos, um de cada tipo, mesmo sabendo que dão cárie, fazem mal e custam caro. É como se eu tivesse que provar pra mim mesma que não tenho mais que dividir aquela miséria e sonhar com uma balinha uma vez por década. Imagine como se sentem os artista de axé, pagode, que nasceram muito mais pobre e ficaram muito mais ricos. Comeriam um urso vivo!

Eu sei, existem maneiras de comer de forma saudável e sem privações. O problema é que tenho vontade de dar um soco na cara de cada nutricionista que me diz que o ideal é ‘cortar o pão, os doces e comer muita salada, verdura, frutas e proteína’. Ah, sei, tá boa, santa? Só que o mundo que construíram a nossa volta não oferece melão em fatias nas padarias. Ao contrário, em todo lugar tem saquinhos de baconzitos, fandangos, cheetos. Pepino e cenoura que é bom, nada.

As opções mais saudáveis são as barrinhas de cereais, mas depois das primeiras 25, você fica super enjoado.

A ciência busca incessantemente uma solução pra acabar com a obesidade, epidemia americana que já contagiou vários outros países, inclusive o Brasil. Os remédios são lançados o tempo todo, em geral com efeitos colaterais. O Xenical é um deles. Já vi apresentador de TV sair correndo no break pra chamar o primo do Ugo, o James Cagney, já vi colega de trabalho pular por cima das mesas de trabalho para encontrar o James.

Até o ACM estava tentando emagrecer com caminhadas e Xenical, o que valeu uma manchete que eu mesma criei para a capa do farofa: Eu sabia que ACM estava ca…ando e andando pelo Brasil!

Para resolver a vontade de continuar comendo e ficar magro ou magra, surgiu a lipoaspiração, medida drástica e cirúrgica que oferece riscos, sempre escondidos pela mídia, e resultados, sempre promovidos pela mesma. Há também as cirurgias para os obesos mórbidos, como a redução do estômago e, recentemente, uma bola de silicone que é colocada no estômago pra enganar o coitadinho. É como se o cidadão tivesse um dos peitos da feiticeira dentro da barriga, permanentemente. Deus me livre, bate na madeira, sai capeta.

Eu comecei minha luta para ser magrinha desde a adolescência. Naquele tempo, não se falava em anorexia, mas também não tinha fast-food pra piorar a vida dos jovens. A gente engordava com rabanada da avó, torta de maçã da tia, goiabada do interior, doce de leite mineiro e muito café com pão, café com pão, café com pão.

Logo percebi que meu problema não era apenas excesso de peso mas falta de estatura. Ser baixinha é um carma, uma maldição. Ser baixinha é estar condenada a passar a vida subindo em banquinhos, escadinhas e caixotes em busca da louça na prateleira mais alta. Porém, como é difícil resolver o problema da altura depois do fim da adolescência, o jeito é ficar magra para garantir a proporção.

Meu primeiro regime quase me matou. Aos 16 anos, cabendo em uma única calça azul marinho, minha mãe me levou a uma clínica por assim dizer. Era quase um matadouro. Davam remédios iguais para pessoas diferentes, não pediam exames, nada. O remédio era uma ‘hóstia’, recheada de bombas químicas para tirar o apetite, acalmar os nervos, curar mal-olhado e, ao que tudo indica, emagrecer olho-gordo.

Era o efeito sanfona, emagrece-engorda. Hoje, sei que isso mata mais do estabilizar num peso alto.

Na faculdade, aos 17 anos eu estava bem gostosinha. Não estava gorducha, nem magrela, estava bem. Passei oito inesquecíveis anos na Universidade de São Paulo, nadando dois quilômetros por dia, correndo pelo campus, fazendo aulas de tênis, yoga, ginástica olímpica e, claro, sexo. Mantive um peso bacana até os 23 anos. E depois emagreci mais ainda.

Em 1983, com 25 anos, eu fazia ginástica aeróbica cinco vezes por semana. Eu era a melhor da turma e ficava na frente, ajudando o professor. Fiz uma dieta super rigorosa à base de frutas e pesava 49 quilos.

Essa modinha dos anos 2000, eu já usava 17 anos antes, com top e saia de cintura muito baixa, deixando o umbigo de fora. Minhas saias eram muito, muito curtas, todas as três. Achei que ficaria magrinha pra sempre, mas enganei-me.

Aos 30 eu fiquei grávida e comi por todas as décadas anteriores. Fiquei uma pipa. Uma pipa feliz pois meu filho Gabriel me transformou em mãe, a coisa mais linda do mundo.

Na maternidade, em homenagem a ele, eu escrevi poemas, textos e até coisas engraçadas. Foi nessa época que eu concluí que mulher é uma coisa incrível, pois a mulher é capaz de verter sangue, suor, lágrimas e leite. Nem máquina de refrigerante tem tantas opções de sabor.

Eu estava gorda e feliz. Trabalhava na TV Cultura, era roteirista do Osmar Santos, amamentava o Gabriel em todo lugar e vivia sorrindo.

Quando parei de amamentá-lo e que fui me dar conta do que havia sobrado. Eu estava gorda e feia e queria me esconder do mundo. Comecei a usar roupas largas, muito vestido preto, muitas calças pretas. Mais duas camisas pretas e eu teria entrado pro clube dos urubús. Entrei num círculo vicioso de ficar feia e fazer tudo para piorar.

Até que conheci o Isaac, meu marido, meu amor. Naquele instante, eu quis ficar bonita instantanemante. Se eu encontrasse uma lâmpada maravilhosa teria roubado o corpo e a cara da Cindy Crawford pra mim. Nunca me esqueço, eu estava no programa Almanaque, na Rede TV e ele foi lá como convidado. Quando eu o vi, e olhei pra mim, com um vestido largo, preto, fechado no pescoço, até as canelas, eu quis morrer. Não, eu quis viver e quis ficar bonita.

Sem saber se ele se interessaria por mim, se me telefonaria, se eu o veria novamente, decidi arrumar o cabelo, fazer regime e comecei a correr no dia seguinte.

Durante todo o tempo em que namoramos, eu corri, corri muito. No melhor da minha forma, eu corria 22 quilômetros. Saía do meu sobrado no Alto da Lapa, corria até a USP e corria por toda a USP e voltava pra casa. Eu corria até em dia de chuva e tempestade. Fui ficando bem novamente.

Quando engravidei da Anita, minha filha como Isaac, eu estava pesando uns 52 quilos. Um mês depois que ela nasceu, estava com meu peso de volta, e com aquela cara iluminada de mãe.

Não sei quando foi exatamente que eu deixei as coisas degringolarem. Acho que quando fui demitida da Record. Nunca me dediquei tanto a um trabalho, nunca fiz um trabalho tão bom, nunca tive tantos telespectadores, fãs, admiradores, amigos e companheiros. E uma única pessoa, talvez duas, me apunhalaram pelas costas. Foi um golpe duro, que eu só consegui absorver com a ajuda de muitas e muitas jujubas.

Agora, reestruturada, mais calma e feliz, estou tentando voltar a ficar magrinha.

Já perdi cinco quilos e tenho seguido à dieta à risca. Até ontem eu poderia dizer com orgulho que não ingeri uma única molécula além da dieta. Mas antes da noite passada comi oito ursinhos Gummy da Haribo. E hoje, comi mais uns 4 ursinhos. Se o Ibama souber, vai me multar com mais uns 3 quilos. Não conta pra ninguém, tá?



Capítulo 12 – Variações de Humor

O humor varia. Depende. Muda. E de vez em quando sai pra comprar cigarros e não volta nunca mais.

Isso, na ficção, porque na vida real ele volta sempre, mesmo que chegue arranhado, arrependido, com frio e sem grana. Mas a nós, humanos, basta que o bom humor volte, não importa em que condições. A gente bota os pézinhos dele na bacia de água quente, oferece um chá, põe pra dormir e com a ajuda do bom Deus, na manhã seguinte ele já está lépido e fagueiro.

Meu humor cansa de si mesmo em algumas estações, sejam elas do ano, do trem, do metrô ou até mesmo em algumas estações de rádio e televisão. Meu humor de vez em quando sai pra dar uma volta sem avisar, pega as chaves do carro sem pedir licença e sai pra dar uma volta.

Outro dia, bateu meu carro por distração. Mas eu perdôo. O humor da gente é como um filho, a gente ama de forma incondicional porque sabe que sem ele não há continuidade para a vida.

Em geral eu não acordo nem de bom nem de mau humor. Acordo sem. Costumo dormir de cara para o travesseiro. Alguns analistas podem interpretar esse getso como uma tentativa diária de suicídio por asfixia mas no fundo é só pra deixar a barriga mais quentinha. E acordo com a cara toda amassada, dependendo da fronha. Não sei se as vendedoras nas lojas de roupa de cama tem esse dado incluso no treinamento, mas deveriam. Uma fronha que não amassa é essencial para a cara de quem dorme de bruços.

Quanto levanto da cama e vejo o que é que sobrou da noite anterior diante do espelho e encontro vergões que vão da bocheca à sobrancelha, já fico de mau humor. Mas nada que a água fria da torneira não aplaque. Mesmo porque o vergão acaba saindo.

Mais importante para o bom humor do que o travesseiro é o horário em que se acorda. No tempo em que eu levantava às 5 todo santo dia, o medo de perder o horário pra apresentar o programa ao vivo era tão grande que eu nem tinha tempo de prestar atenção no meu humor. Mas qualquer um que já perdeu a hora e acordou atrasado sabe que não há humor que resista ao relógio implacável.

O café da manhã influencia muito o humor da pessoa durante o resto do dia. Se você está num hotel com café incluso e vê aquele buffet farto cheio de frutas desconhecidas e sucos inexplicáveis, no meio de croissants, torradas, bolos e ovos mexidos, uma nuvem de felicidade imediatamente toma consta do seu instinto. Aquela visão matinal de comida leve, ao som do tilintar de talheres e tampas de travessas no rechaud abrindo e fechando, nos dá a certeza de que não vamos passar fome em momento algum. Mesmo que tudo desse errado, mesmo que você ficassem sem dinheiro ou que os restaurantes todos fechassem, você poderá comer o suficiente no café da manhã para passar o dia inteiro nutrido. E o humor está diretamente ligado à esta garantia, a certeza da sobrevivência.

Sim, porque, se você tivesse agora a mais absoluta certeza, a garantia dada por Deus em pessoa diante de você, de que sua vida chegará até os 100 anos, sem doenças, sem acidentes, sem privações, você não ía ficar mau humorado.

Esse sentimento chato que a gente tem, essa vontade de rosnar para o mundo, de morder a orelha do guarda que multa seu carro, vem dessa insegurança permanente que nos assola. A gente sai de casa e não tem certeza se o trânsito vai andar, se os colegas de trabalho vão tratar você com carinho, se os problemas vão ser resolvidos. Não tem certeza de nada. E ainda tem a sensação de que ninguém de fato no mundo se importa muito com você. Você está por sua conta, obra e risco. E o pic nic da vida poderá ser interrompido a qualquer momento por uma tempestade vinda de não sei onde. É isso que faz a gente produzir mais bile, mais líquidos amargos no corpo, interromper a boa digestão e ficar totalmente enfezado.

Meu bom humor sabe dessas coisas mas não está nem aí. Reage de forma infantil à coisas tolas e me deixa feliz por bobagens, às vezes, apenas por encontrar a tarrachinha perdida de um brinco. Por acertar um caminho melhor no trânsito. Por uma música velha que toca no rádio e me põe a cantar. É bobo, coitadinho, inocente. Mas é uma gracinha.

Quando estou de bom humor sou uma tetéia, um doce de coco. Cumprimento todo mundo, distribuo sorrisos, crio um microcosmo de felicidade ao meu redor e por onde passo, sinto que deixo um rastro de dentes à mostra. Nesses dias, sinto-me um ser abençoado, sempre cheio de amor e esperança para distribuir nas esquinas da vida. Cada ser humano que entra em contato comigo sente que é o mais especial do planeta e sai com energias renovadas do encontro. Porém…ah…e sempre há um porém, quando estou de mau humor…sai de baixo. Minha estupidez é mais feia que o Pedro de Lara. Atendo mal ao telefone, respondo os emails de forma malcriada e só não mordo porque não tenho vontade de chegar perto de ninguém os suficiente para cravar os dentes.

Infelizmente, e aqui, meu marido que o diga, de vez em quando 48 horas de TPM e entro nesse estado agressivo que é considerado até como atenuante pelas alçadas jurídicas, no caso da mulher cometer um crime.

Hoje, por exemplo, não estou de muito bom humor. Quer dizer, mais ou menos. Não tratei mal ninguém, não fui agressiva, talvez porque eu tenha me contido.

Há uma curiosidade porém, sobre o humor na profissão. Não preciso estar de bom humor para escrever humor. Aliás, ao contrário. Muitas vezes, quando estou no meu pior estado, consigo desovar todo meu sentimento no texto e acabo produzindo coisas muito divertidas. Tenho minhas próprias teorias sobre o humor, sobre o inesperado do texto. Uma delas é a de que o humor é um susto do bem.

Tem aquele susto que faz passar soluço, o ‘bú!’, curto e intenso que altera a respiração do assustado e assim, atrapalha o bom andamento da cadência do hic-hic. Há um tipo de humor assim, o de algumas piadas, que criam um caminho de compreensão no cérebro e, no final, assutam o raciocínio com outro desfecho. Uma piada típica dessa natureza é a da mulher que fica pedindo pro mordomo tirar a roupa. “Jarbas…tire minha saia”.. E o mordomo “Mas madame!!!” E ela, Jarbas, tire minha camisa. E assim vai, jarbas tire meu sutiã, tire minha calcinha, Jarbas tire minhas meias. E aí no final, vem o desfecho: e da próxima vez que você vestir minhas roupas, Jarbas, você será demitido.

Esse é o humor tipo ‘twist’, um caminho torcido que enrola a sua cabeça. É igualzinha em estrutura à piada dos dois irmãos caipiras sentados no rio com os pés dentro dágua. E aí o primeiro vira pro segundo e diz: ô mano… jacaré comeu meu pé. E o outro irmão? – Ah, é? qual? e o um: Sei não, jacaré é tudo igual!

Esse tipo é muito usado na publicidade, especialmente nos comerciais de TV. Você é induzido a acreditar em uma coisa, aí vem a assinatura do produto e no final, você descobre que era outra coisa. E com um pouco sorte alguém ri no final.

Eu gosto de fazer rir. Eu sou a maior provedora de hahaha nos diálogos online. Fazer o outro rir é uma coisa muito boa. Quando faz muita gente rir, como no humor de rádio, então, é uma coisa indescritível. O humorista acaba viciando na risada do público e por isso, esforça-se para ser cada vez mais engraçado.

O tipo de humor que eu mais gosto é o do nonsense. O nonsense é aquele que produz imagens inverrossímeis, mais próximo do desenho animado, do cartoon do que da comédia propriamente dita. O nonsense é a liberdade total de criação, sem limite de tempo, espaço ou nexo. É ele que coloca a ervilha de castigo no cantinho olhando pra parede e vestindo calça jeans. É um pouco mais louco que o humor do exagero, do elefante e da formiguinha, do papagaio e do galinheiro.

Há também o humor construído, a partir da palavras erradas, como no personagem da Magda, do sai de baixo. Exemplos de expressões como ‘das malas a menor’, ‘eu vou chupar o pau da barraca’, ‘me pegou de enxofre’, ou, ‘estou surpresa, você me pegou assim, de chupetão’. É a burrice que faz com que o detetive pegue a arma e descubra as se as suas depressões genitais estão no cabo.

A burrice sempre fez parte do humor. Mas para escrever coisas muito burras é preciso pensar coisas muito inteligentes. Porque é um humor arquitetato, planejado, com a cadência e o tempo certos.

Não sei se existem muitos livros que teorizam sobre o humor mas eu gostaria de escrever um assim, analisando os textos engraçados, criando categorias para as diferentes piadas.

Um dos estilos de piadas que eu mais gosto é a do tipo americano, que vai…chega a uma coisa engraçada… e quanto todo mundo ri, dá mais uma pra arrematar. Um exemplo adaptado para muitos países e pessoas. Vamos contá-la no original, que era sobre um presidente americano, o Ronald Reagan. O cara chega, diante das pessoas e diz:

-eu tenho uma notícia muito triste. Trágica. Acaba de acontecer um incêndio na casa do Presidente Ronald Reagan. Pegou fogo na biblioteca dele e, pelo que parece, foi perda total. O fogo consumiu todos os dois livros que ele possuía. E infelizmente, ele ainda nem tinha acabado de colorir o segundo.

Na mesma linha, tem aquela da loira que pergunta o que dar de presente ao namorado e a pessoa sugere: ‘um livro’. E a loira responde: Livro? Mas ele já tem um!

É chato dar presente repetido!

Se você pesquisar, vai ver que todas as piadas antes atribuídas à burrice de portugueses, poloneses, agora são atribuídas à loiras. Há também, entre os americanos as piadas do tipo Yo Mamma, que é para xingar a mãe. São sempre ligadas à ofensas como obesidade, do tipo ‘sua mãe é tão gorda que ela tem o próprio CEP’. Os americanos acham graça nas ofensas, um humor bem pueril.

O humor dos ingleses é muito diferente, cheio de fleuma e em geral, com um tipo de graça que não arranca risos mas apenas, faz a gente esticar os lábios. Já é alguma coisa.

Aqui no Brasil, faz muito sucesso o humor circense, aquele do Chaves, dos Trapalhões, dos Três patetas. É infantil, de fácil compreensão e no fim, é engraçado pra chuchu. As crianças adoram e os adultos, morrem de rir.

Capítulo 05 -O mundo lá fora (ATÉ O CAP. 8)

Você conhece a brincadeira do coelho e da cenoura? É assim: um coelho está a uma certa distância de uma cenoura, digamos, 10 metros. A cada salto, ele pula metade da distância que os separa.

Primeiro salto, 5 metros. Ele está a outros 5 metros da cenoura. Segundo salto, 2.5 metros. Agora ele já está a 2,5 metros da cenoura. Terceiro salto, mais 1.25. E assim vai. Teoricamente, o coelho jamais alcançará a cenoura. Porque a distância vai se subdividindo infinitamente. A distância entre coelho e a cenoura nunca será exatamente zero.

Isso, na teoria. Porque na prática, a cenoura não é um ponto, as distâncias são finitas e os coelhos não saltam do jeito que a gente manda só pra fazer um exercício matemático.

Na vida real, coelhos comem cenouras e físicos ficam pesquisando a vida inteira. Eu não queria passar minha vida num laboratório. Eu tinha planos para o mundo lá fora.
Era neste mundo, do lado de fora, que eu me divertia muito dando aulas de inglês. Perdi a conta de todos os alunos que tive. De vez em quando um sobrevivente manda um email pra mim. Entre as tantas turmas de students que tive, uma delas, de adultos, introduziu o mundo das comunicações pra mim. Eram duas alunas, a Vera Moura e sua amiga, cujo nome não me lembro. Pena, porque foram elas que me incentivaram a abandonar a ciência e partir pra comunicação.

Toda aula, elas insistiam em perguntar: “por que você não faz comunicação?”. Elas eram contatos da então Editora Manchete e um dia me convidaram para almoçar na Casa da Manchete, hoje, mansão do empresário Jorge Yunes, famoso por emprestar dinheiro para que os amigos comprem casas na praia e dêem festas nababescas. Tudo, claro, com juros zero e sem compromisso de devolução. Foi assim com o prefeito Celso Pitta, por exemplo. Se eu soubesse eu teria pedido dinheiro emprestado para o Jorge logo no começo dos anos 80. Teria me poupado um bocado de trabalho. Bobagem, naquela época em que as coisas faziam sentido, a Casa da Manchete era da Editora Manchete pra valer.

Fiquei encantada com a casa. Era deslumbrante, um prenúncio dos quadros de pintores famosos, toalhas de linho, taças de cristal e sous-plats de prata que eu viria a conhecer na extinta TV-Manchete, da mesma família Bloch. O almoço era servido por garçons elegantes á beira da linda piscina, ao lado do jardim. Se aquele era o mundo da comunicação, ele estava de parabéns. Porque na física a vida era feita de bandejão do Crusp e bosque cheio de mato.

Não sei precisar quanto tempo depois aconteceu mas um belo dia (e tudo acontece num belo dia, não porque o dia seja inicialmente belo mas porque os grandes acontecimentos provêem o dia de beleza) eu estava na sala gelada onde eu trabalhava no IFUSP e veio o estalo: pra mim, chega.

Peguei minha bolsa, levantei, fui até o orelhão, liguei para minha ex-aluna, a Vera Moura e disse que eu iria seguir seu conselho, abandonaria a física e iria para o mundo das comunicações. Pedi a ela um conselho, uma ajuda, uma dica. Ela me passou por telefone o endereço de uma agência de propaganda. Desliguei o telefone, avisei meu orientador da minha decisão e fui para casa com meu papelzinho dobrado, pronta para mudar os rumos de minha vida.

Procurei o nome da rua no mapa, rua General Jardim, no centro de São Paulo, não muito recomendada à noite nos dias de hoje devido ao mercado persa de sexo que oferece de tudo, incluindo risco de vida.

Mas na época, em 1981, fui durante o dia e encontrei a rua, o prédio e a portaria. Não tinha idéia de que o prédio inteiro fosse da agência e fiquei olhando aquela placa com os andares e seus ocupantes, presente em várias paredes de edifícios comerciais. Eu não sabia em que andar ir mas achei que quem fica na cobertura é sempre mais poderoso. Comecei por cima. Pedi pelo nono, em homenagem a Beethoven, e fui iniciar minha sinfonia.

Eu não tinha a exata noção de onde eu estava. Não sabia o que queria. Não tinha nenhuma expectativa ou experiência. E a reunião desses detalhes parecia ser o terreno ideal para o surgimento da Fada Sorte, aquela que tudo faz por quem nada quer.

Fui direto para a secretária e perguntei pelo nome anotado no papel, Sérgio Graciotti. Não estava. Ou estava em reunião. Dava no mesmo. A secretária perguntou se era só com ele ou se poderia ser com mais alguém. Qual era a alternativa? Falar com Petroninho. Eu não sabia quem era mas também não sou do tipo de acerta o sorvete na testa. O nome da agência eu sabia, MPM, iniciais de Mafuz, Petrônio e Macedo. Ninguém é chamado de Petroninho no andar de cobertura se não for pelo menos, herdeiro do trono. Topei e fui falar com ele.

Quem era eu, afinal? Eu não era ninguém mas até que ele descobrisse isso eu já estaria contratada. Depois, se eu havia chegado até ele, eu teria que ser alguém. Assim raciocinam os poderosos. Eu deveria ser alguém importante, alguém conhecida, alguém próxima a alguém importante. Na dúvida, é sempre bom tratar bem a pessoa porque ela pode, sobretudo, ser parente de algum cliente da agência, digamos a filha do dono de uma empresa.

Eu só soube depois mas a rádio corredor havia decidido que eu era sobrinha do Sérgio Graciotti, o nome que me foi indicado pela minha ex-aluna de inglês, a Vera Moura.
A entrevista com o Petroninho foi gótica, pra dizer o mínimo. Um daqueles momentos que a gente gostaria de rever em VHS. Naquela época não havia câmeras escondidas nas salas. Era 1981, bem no começo, fevereiro, talvez. Ele começou perguntando o que eu fazia. Eu era Física nuclear. Se eu já havia trabalhado numa agência de propaganda? Não, nunca. De onde eu vinha? Do Acelerador Linear do Instituto de Física da USP. Era muito diferente da Globo e você, era nada a ver.

Exatamente porque era tudo tão obtuso que ele concluiu que eu só poderia ter sido recomendada por alguém muito importante e ele não iria me tratar mal e correr o risco de ser demitido pelo próprio pai. Era sexta-feira. Ele marcou para eu começar na segunda como estagiária. Eu disse terça. Ficou para terça feira. às 9:00 da manhã eu começaria meu estágio na então maior agência de propaganda do Brasil, e no departamento mais badalada, a Criação.

Ainda não sabia, mas eu conheceria exatamente ali, ou através daquele lugar, as pessoas com quem trabalhei a vida inteira. Uma delas, com quem trabalho hoje, precisamente.

A entrevista estava muito boa mas eu tinha que ir. Precisava acabar de ler o Almanaque Abril para prestar o vestibular para fazer Comunicações na ECA,a Escola de Artes Dramáticas da USP, onde eu acabaria entrando mesmo, logo depois de fechar a quarta capa do almanaque.

Nessa época eu morava com uma amiga minha, a Maria Ângela Camargo, minha amiga do Instituto de Física. Éramos solteiras e nos tratávamos por ‘tia’ e mais tarde, ‘tião’. Era 1981, John Lennon havia sido assassinado no ano anterior. Me lembro como se fosse hoje o dia que Johan Lennon morreu. Eu morava com tião num apartamento modesto próximo à USP. Meu fusca branco havia sido confiscado pela polícia e até comprar outro, eu só andava de bicicleta. Namorava com um ex-aluno de inglês, ex-editor chefe do Caderno de Esportes do Jornal da Tarde, o Edu, a quem eu chamo de Zé, hoje, editor geral do site da PSN, um destino perfeito para um corinthiano apaixonado como Zé Eduardo. Durante a madrugada ele recebeu pelo teletipo a notícia dos Estados Unidos. Correu para minha casa de madrugada com a notícia. Havia rumores de que Yoko Ono teria morrido também. Descemos para o andar térreo do prédio, antes do dia amanhecer, sem saber o que fazer, com aquela notícia atravessada na garganta, mataram John.

Yoko sobreviveu, Edu casou, sua ex-namorada Julia casou com Zé Rodrix, eu casei. Tudo isso, mais tarde, porque em 81, o grande barato antes de sair de casa para ir à MPM era ouvir o programa de rádio do Gil Gomes.

Todo santo dia eu entrava na agência atrasada, porque não conseguia parar de ouvir o Gil Gomes no rádio do carro. Não dava pra ir de bicicleta para o trabalho anyway. Na agência meu salário era zero. O que eu recebia durante 6 meses era um vale-refeição para uma espécie de boteco na vizinhança, onde eu comia, sempre, o mesmo prato: berinjela ao forno e uma água tônica. Foram 12 meses de berinjela ao forno e água tônica, sem exceções. Hoje, eu já sou praticamente uma berinjela e para mudar o formato do quadril arredondado e tronco fino, só com lipoescultura. Ao que tudo indica com a cabeça cheia de quinino advindo da água tônica mas isso, nem cirurgia resolve.

Comecei na agência como estagiária da criação, onde conheci amigos com quem me relaciono até hoje, como o Eduardo Castor Borgonovi. As feras da época eram o Castor, Diniz, Ercílio Tranjan, Feijão, João Simone, Gibinha, Sérgio Graciotti, Adriana Cury, Silvio Lima, Paulinho Leite e Cristina. Havia também o lendário imitador de rádio, Chiquinho Ferrão, o redator Palhares, e muita gente que eu nem me lembro mais, não tanto por falta de espaço na memória mas por falta de memória no tempo-espaço.

Da criação fui para o departamento de merchandising como redatora contratada. O chefe era o Paulo Penteado. Eu fazia dupla com o diretor de arte Formiga. No meu departamento trabalhava a ótima redatora Margot Soliani. Margot dividia um apartamento muito gracinha no último andar de um prédio sem elevador na Vila Madalena, hoje nacionalmente conhecida por ter virado novela da Rede Globo com Mariangela Zampol, do departamento de pesquisa da agência. Já naquela época era um lugar descolado. Fiquei encantada com o apê e quando elas se mudaram fui morar lá com tião. Até hoje guardo lembranças marcantes do tempo em que eu carregava a bicicleta pelas escadas.

Eu não sabia onde eu estava. Não sabia o que queria. Não tinha nenhuma expectativa. E a reunião desses detalhes parecia ser o terreno ideal para o surgimento da Fada Sorte, aquela que ajuda quem não pede.

Fui direto para a secretária e perguntei pelo nome anotado no papel, Sérgio Graciotti. Não estava. Ou estava em reunião. Dava no mesmo. A secretária perguntou se era só com ele ou se poderia ser com mais alguém. Qual era a alternativa? Falar com Petroninho. Eu não sabia quem era mas também não sou do tipo de acerta o sorvete na testa. O nome da agência eu sabia, MPM, iniciais de Mafuz, Petrônio e Macedo. Ninguém é chamado de Petroninho no andar de cobertura se não for pelo menos, herdeiro do trono. Topei e fui falar com ele.

Quem era eu, afinal? Eu não era ninguém mas ele não sabia disso e, se eu havia chegado até ele, eu teria que ser alguém. Alguém importante, alguém conhecida, alguém próxima a alguém importante. Na dúvida, é sempre bom tratar bem a pessoa porque ela pode, sobretudo, ser parente de algum cliente da agência, digamos a filha do dono de uma empresa atendida pela agência.

Eu só soube depois mas a rádio corredor havia fechado que eu era sobrinha do Sérgio Graciotti, o nome que me foi indicado pela minha ex-aluna de inglês, a Vera Moura.
A entrevista foi gótica, pra dizer o mínimo. Um daqueles momentos que a gente gostaria de rever em VHS. Naquela época não havia câmeras escondidas nas salas. Era 1981, bem no começo, fevereiro, talvez. Ele começou perguntando o que eu fazia. Física nuclear. Se eu já havia trabalhado numa agência de propaganda? Não, nunca. De onde eu vinha? Do Acelerador Linear do Instituto de Física da USP. Era muito diferente da Globo e você, era nada a ver.

Exatamente porque era tudo tão obtuso que ele concluir que eu só poderia ter sido recomendada por alguém muito importante e ele não iria me tratar mal e correr o risco de ser demitido pelo próprio pai. Era sexta-feira. Ele marcou para eu começar na segunda como estagiária. Eu disse terça. Ficou para terça feira. às 9:00 da manhã eu começaria meu estágio na então maior agência de propaganda do Brasil, e no departamento mais badalada, a Criação.

Ainda não sabia, mas eu conheceria exatamente ali, ou através daquele lugar, as pessoas com quem trabalhei a vida inteira. Uma delas, com quem trabalho hoje, precisamente.

A entrevista estava muito boa mas eu tinha que ir. Precisava acabar de ler o Almanaque Abril para prestar o vestibular para fazer Comunicações na ECA,a Escola de Artes Dramáticas da USP, onde eu acabaria entrando mesmo, logo depois de fechar a quarta capa do almanaque.


Capítulo 06 -Falemos de amor…

Você já escreveu, tentou, pensou, em registrar em texto qualquer coisa ligada a sua vida íntima? Amor, sexo, relacionamento? Pois se já tentou, garanto que as primeiras barreiras que surgiram foram a mãe, o pai, e a cara-metade. Não vou nem mencionar a dificuldade de escrever sobre nossos vícios e atitudes ilícitas, que batem direto no medo da polícia.
E o medo de registrar em texto faz sentido, porque mesmo vivendo neste país classificadamente corrupto, o jogo do bicho nos ensinou que na vida, só vale o escrito.

Existe um código de ética invisível e sublimado entre as pessoas que mantêm uma relação, que é a de não ficar falando de amores anteriores. Bilhões de retratos já foram picados, amassados e recortados, na tentativa vã de arrancar do passado do objeto do nosso amor, as criaturas que vieram antes da gente.
Bobagem. Não dá pra mudar o passado. Ao contrário, quando a gente tem um relacionamento estável, feliz, com intenção de ser para sempre, podemos colecionar os amores passados, e guardar nos armários da memória, todas as lembranças numa gaveta da cômoda, inclusive, as incômodas (…)
Aproveitando os parênteses abertos para introduzir a pergunta: onde estará o passado?

Há filmes de ficção que mostram o passado existindo fisicamente em algum lugar atingível por uma máquina do tempo. De volta pra o futuro, Peggy Sue Seu passado a espera, o túnel do tempo, são obras de ficção onde o passado parece ‘existir’ e pode até mesmo ser atingido. E mudado… Outros filmes como Matrix, mais moderno, troca a possibilidade de viajar ao passado pela visão de que tudo são programas. Esqueci o nome do filme que vi outro dia, mas o mundo terminava num monte de linhas de um programa inacabado de computador. Era possível fazer um upload e depois um download e ir e voltar para o próprio passado. A gente virava um ‘usuário’ da própria história. (O Cláudio me escreveu: chama-se 13o. andar. )

Não sei exatamente o que pensar, mas espero que ninguém possa invadir o passado alheio e roubar de nós os poucos segredos tolos que insistimos em guardar na cabeça enquanto dispomos de lucidez. Um dia vem a senilidade e apaga tudo mesmo.
Sempre fui um ser em estado de amor. Acredito que as raízes das grandes árvores arrancam a vida da terra, as folhas absorvem a energia do sol, e quando as árvores não cabem mais em si de tanta vida, explodem em flores multicoloridas que ganham asas e viram passarinhos. As que ficam morrem como flores e renascem em frutos, que lançam sementes de volta à terra para tentar uma nova busca por asas. Digo tudo isso porque também amo as letras, a natureza e a poesia.

Eu sempre amei os homens bons. Todos os homens bons. Comecei à la Electra, por meu pai, mas descobri que ele tinha um caso com minha mãe e desisti de cara. E apesar de praticar o heterosexualismo, nunca deixei de amar algumas mulheres admiráveis.
Meu primeiro amor pelo sexo oposto aconteceu no primeiro ano da escola. Poderia ter sido antes, mas eu perdi muitos anos da minha primeira infância dando uma de difícil. Na próxima ‘encadernação’ vou parar com essa viadagem e beijar o obstetra na boca assim que cortarem o cordão, para não transformar mamãe em cúmplice.
Ele era um alemãozinho loiro, de olhos verdes, muito tímido e não me restava nada a fazer senão correr atrás dele o tempo todo. A ele agradeço até hoje minhas pernas bem torneadas. Não deu em nada, provavelmente porque tínhamos 7 anos de idade. Mas o autor do outro livro, o da vida, incumbiu-se de nos resgatar como personagens e acabei namorando com ele aos 17. Nunca passamos dos beijos na boca e jamais chegamos perto da divisão reprodutiva. Ele, porque só acreditava em sexo depois do casamento. Eu, porque não acreditava em sexo na cama de cima do beliche.

Entre os 7 e os 10 fui apaixonada por cantores, atores, filhos de vizinhas. Tive um diário para escrever sobre meus amores que virou um marco negro na história de confiança entre eu e as mulheres da família. Minha prima mais velha, descobriu que eu estava apaixonada, contou para minha mãe, que violou meu diário e descobriu meus segredos. Por causa disso, minha mãe me mantinha numa escola só para mulheres. Que tolinha, mamãe. Não sabia que os meninos transitavam soltos pelo mundo e eu, obviamente, arrumei um namorado no ônibus. Ía e voltava da clausura feminina de mãos dadas com meu namoradinho. Sempre recorrente, o destino fez com que ele batesse à minha porta no dia em que fiz 18 anos, alto, feio e incomodamente bêbado para confessar-se ainda apaixonado e causar um constrangimento indescritível. Quem mandou meus pais morarem no mesmo endereço por trinta anos.

No então 1o ano do ginásio, hoje 5a. série do primeiro grau, Deus me compensou com um presente inesquecível: depois de muito brigar com meus pais para me tirarem da escola de mulheres onde eu só tirava dez e alegava ser por causa do ensino fraco, fui transferida para outra escola. Ocorre que, a escola até então, era exclusivamente para meninos. Seria o primeiro ano em que meninas seriam admitidas também. Seriam, se suas mães assim o fizessem. Mas aparentemente só a minha mãe foi bem convencida e, durante um ano, eu fui a única menina numa sala de 49 alunos. Todos, homens.

Evidentemente eu era virgem, era uma menina mas tudo conspirava a favor do sexo: era o ano de 1969.
Ah! O paraíso é a falta de concorrência! Dumping no mercado da paixão! Monopólio feminino total no mercado do amor! Certo? Errado.
Eram todos homens. Mas tinham a minha idade: 11 anos. Eu queria…homens..mais velhos. E assim, me apaixoneu por um dos gêmeos espanhóis de 17 anos, Carlos e Juan Luiz Maqueda Maqueda. Assim, mesmo, Maqueda por parte de pai e Maqueda por parte de mãe. Eu gostava do Juan Luiz, que me desprezava solenemente por eu ser criança demais.

Foi ele quem primeiro gritou pelo pátio do colégio anunciando aos 4 ventos que eu tinha ficado menstruada pela primeira vez. Se existisse OB nos anos 60 eu o teria enforcado com o cordãozinho. Mas apenas chorei muito no travesseiro e passei a acreditar que sexo, homens, sangue e lágrimas eram coisas difíceis de combinar.
Namorei muito, muito mesmo. Pra ser sincera, não me lembro de um único dia entre meus 7 e meus hoje 26 anos em que eu não estive envolvida com alguém. Ao contrário, durante a vida de solteira já cometi a burrice de ter dois, três namorados ao mesmo tempo, mistura da indecisão com a insegurança, tudo regado a calda de auto-afirmação. E uma cereja de vaidade em cima.

Aos 26, casei-me pela primeira vez. Hoje estou casada, pela última vez e confesso ter encontrado o homem da minha vida. Construímos uma família e somos muito, muito felizes.

E se os amores do passado voltam à esta tela é porque a internet permite que cada um de nós busque e encontre seu ex-parceiros no filme coletivo “Meu passado me condena”, onde todos somos ora coadjuvantes, ora atores principais, ora figurantes. Hoje, tenho contato por email, Icq ou IM da Aol, com o primeiro garoto que se apaixonou perdidamente por mim, com minha primeira paixão fulminante, e o primeiro namorado com quem fiz sexo.
E atire o primeiro monitor de 14 polegadas quem nunca procurou um amor antigo nos mecanismos de busca desta louca rede de intrigas.

Capítulo 07 -Eu sou fogo!

A idéia deste capítulo veio com um email, enviado pela Fernanda, cujo nickname é Sally CinnamOn. Fiquei em dúvida se o CinnamOn é com a letra ‘O’ ou se é um número zero (0). Experimente a diferença no seu teclado:
OOOO e 00000000

A letra é mais gordinha que o número, mas é difícil de saber sem comparar. Em 1975, quando rodei meu primeiro programa de computador na Escola Politécnica da USP, no primeiro ano do curso de Física, troquei um Zero por uma letra ‘O’ na perfuradora IBM e fiquei um tempão tentando descobrir meu erro. Aprendi. Suspeito de qualquer bolinha do teclado desde então.

Esse exemplo fortuito cai como uma luva para o texto. Aliás, cai como qualquer coisa sujeita à gravidade… Eu sou fogo mesmo. Leonina, solar.
Sou tão leonina e tão solar que como todo mundo que tem o elemento fogo, mesmo não sendo no rabo, adoro dizer que sou fogo. Dá uma sensação de poder, uma coisa bem de gente meio metida a besta como eu. Só meio, porque a outra metade é muito bacana.
Por ter o sol como regente, inventei uma frase para explicar minha natureza. Digo que sou um sol. De longo, ilumino; de perto, aqueço. Mas se encostar, eu queimo mesmo.

Sou exatamente assim. Num ambiente, eu jogo luz. Gosto de festas, de animar as pessoas, de contar piadas e casos. Nos momentos sombrios, tristes, nas situações de escuridão, estarei sempre com uma lanterna, uma vela, um sorriso meio amarelo porém iluminado.

Nas relações mais próximas, aqueço. Sou afetiva, abraço, beijo, dou conforto. Sou aquela amiga em quem você pode confiar, com quem você pode contar. Mas tem que ser alguém que eu considere próxima. É uma coisa do destino, da empatia, não tem inscrições abertas para distribuir carteirinha. E isso não tem nada a ver com o fato de ter trabalhado na televisão. É coisa minha. Se eu fosse da Máfia diria que é cosa nostra.

Agora, tem um porém. Detesto ser invadida. Detesto que me façam perguntas, que me abordem, que invadam minha privacidade. Que me interroguem, me ponham contra a parede. E não suporto que falem comigo pegando em mim. Um dia eu fui à uma reunião de trabalho, na sede do empreendimento Xuxa Water Park, que acabou não sendo lançado por problemas com algum órgão defensor da áreas verdes. Não sei se foi o Ibama ou o que. Ao meu lado, na reunião, lotada de gente, havia um homem que me cutucava no ombro direito. Aquilo foi acordando meus demônios, que moram nos meus ombros. Eu fui ficando com um ódio, uma ira incontroláveis. Na nonagésima terceira vez que ele me cutucou, já no hematoma fixado pelas 89 vezes anteriores, explodi.
Levantei da cadeira, que caiu com o peso da bolsa apoiada no espaldar e gritei algo assim:

– Escuta aqui: eu estou agüentando você me cutucar com esse dedo desde o começo da reunião! O que é que você tá pensando? Pra mim, um palmo em volta da minha pela já é meu espaço aéreo! Portanto, não encoste em mim!!!!

Foi aquele clima geral. Mas a reunião continuou, nem sei como.Esse é meu jeito de queimar as pessoas que me invadem. O exemplo foi físico, mas serve também para o plano espiritual, metafísico, psíquico ou mental.

De vez em quando também sou vítima do meu próprio elemento, o fogo. A desvantagem é que mesmo brigando comigo não tenho como me distanciar de mim. Isso deve ser o karma, aquilo que a gente tem que agüentar e pronto.
Por estranho que pareça, não estou com muita vontade de falar de mim. Não é que eu não goste de falar sobre mim é que não existe um ‘mim’ constante sobre o qual falar.
Sinto-me como as chamas do fogo, aquelas labaredas que lambem a madeira seca. O fogo é bonito de se olhar, porque a gente não consegue compreender sua textura. E não adianta compreender a explicação lógica do fogo, da combustão do oxigênio. Tudo isso são só informações palavras, não muda o contato visual com aquele fogo seco, dançante, bruxuleante.

Adoro essa palavra, bruxuleante. Ela sempre vem junto com as labaredas, assim como o óbvio e o ululante.

Sei que estou divagando, mas como sempre digo, meu leva é :Divagar. E sempre.
Isto aqui está uma confusão dos diabos, provavelmente, porque quando o assunto é fogo, o demônio sempre aparece. Eu já devia ter imaginado. Acordamos os bichinhos. Vamos a eles então.

Eu já tive o diabo no corpo, de alguma forma. Foi por pouco tempo, mas fui possuída por alguma coisa sem nome, pelo menos, no meu vocabulário.
Nessa época eu morava com minha amiga Julita. Até hoje refiro-me a ela como minha melhor amiga. Ela é a mais especial. É uma pessoa única. Inteligente, sensata, sensível, sábia. Nunca conheci uma mulher que dirigisse tão bem. Nem homem. É a melhor motorista que eu conheço, embora esse não seja o motivo que me faça gostar dela. Gosto dela por tudo que ela é. E vou continuar gostando mesmo que ela decida mudar esse tudo.

Fizemos faculdade juntas no Instituto de Física. Fomos morar juntas. Saímos da casa dos nossos pais para declararmos independência. Nos finais de semana, visitávamos nossas mães em busca de panelas, frigideiras, louça, toalhas e todo o enxoval que as coitadinhas ainda não tinham tido o prazer de nos dar, já que éramos ambas solteiras. Julita chamava essa prática numa alusão divertida ao assalto á mão armada. de “Assalto à mãe amada”.

Foi na nossa casa, na Vila Gomes, um bairro pobre perto da USP, nos baixos-fundos de um sobradinho onde moravam o Halter, do ex-grupo de música latino-americana Tarancón e sua gentil esposa, Vera, que muito me ajudou, que vivemos uma experiência muito intensa ligada a algo que eu chamaria de…sobrenatural. Porque natural, não foi mesmo.

Morávamos abaixo do nível da rua e o acesso à porta da micro-casa dava-se por uma longa escada descendente. Eu ainda dava aulas de inglês nessa época e chegava tarde em casa. Julita chegava mais tarde ainda.

Estacionei meu fusca 69, velho mas com uma inspiração sexual interessante, em frente ao portãozinho e senti que havia algo estranho. Todo mundo já sentiu um desses algos, tão anônimos quanto inexplicáveis.

Achei que a sensação passaria logo e fui descendo os degraus. Mas não. Quando mais eu descia, mais eu sentia. Sozinha e à noite, é fácil deixar-se impressionar por uma experiência dessa mesmo para pessoas com inclinações ao ceticismo, como eu. Mas não havia o que questionar ou contra-argumentar. Eu não estava pensando eu estava…sentindo.

Abri a porta com uma sensação muito estranha, e tirando coragem não sei de onde para entrar em casa.

Entrei. E senti que a casa estava viva. As paredes respiravam. Não sei dizer se eu ouvia a respiração mas como se.
Fiquei impressionada e não sabia o que fazer. Não tínhamos telefone e naquela época o celular estava longe de ser inventado. Fui até a cozinha mas a coisa parecia piorar ao longo do corredor.
Voltei para a sala, sentei-me no sofá e fiquei esperando a Julita chegar. Pouco tempo depois, ouvi carro dela chegando. Esperei quieta. Assim que ela entrou, perguntei:

– Juju, você tá sentindo?
– Estou.
– Eu tô com medo.
– Não precisa.

A casa estava tomada, definitivamente, por não sei o quê. Ela sugeriu que fossemos ao quarto que dividíamos para dormir. Cada uma sentou em sua cama e comecei a ficar muito, muito nervosa.

Ela pediu que eu me acalmasse e que me deitasse. Obedeci e fechei os olhos.
Julita começou a falar num tom calmo como lhe é peculiar, não em tom de prece mas de conselho, de conversa. Lentamente ela foi dizendo que aquele não era seu lugar, que ele fosse embora. Fosse quem fosse, ele ou ela, a respiração crescia e crescia e crescia. Eu não conseguia abrir os olhos, ou falar, ou fazer qualquer coisa que não tremer.

Comecei a sentir um calor intenso, na cabeça do rosto, que descia pelo meu corpo, ardendo ,queimando.
Julita foi aumentando o tom e a intensidade de suas ordens para aquela entidade, nitidamente envolvida e impressionada. De repente, o calor desceu rapidamente para meus pés num crescendo e…acabou.
Acabou tudo. A casa voltou ao normal.

Abri os olhos, sentei-me na beira da cama, abracei Julita que me consolou e depois de me acalmar ela me disse com muito carinho:
– Biscoito, saiu uma chama muito grande de fogo dos seus pés. Uma labareda de luz que foi descendo pelo seu corpo e finalmente, foi embora. Não foi nada. Tá tudo bem.
Nunca contei isso a ninguém, nem comentei mais com Julita. Não fui possuída, mas acho que quando o não-sei-o-que ficou acuado, tentou se esconder em mim. Felizmente eu não nasci pra esconderijo de almas penadas e com o apoio da minha advogada espiritual, livrei-me desse sei-lá-o-quê.

Minha afinidade com Maria Julita Guerra Ferreira sempre foi muito além do natural. Durante uma aula de inglês, tive uma visão súbita de que ela precisava urgentemente de mim, parei a aula, pedi desculpas, peguei a bolsa e sai correndo da escola para encontrar-me com ela. Fui para casa sabendo que ela me esperava na sala, entrei e encontrei-a chorando no sofá. Uma prostituta que fazia ponto em frente ao Jóquei Clube, ouviu a sirene de uma ambulância e pensou que fosse a polícia. Com medo, correu loucamente e atravessou a rua e jogou-se em frente ao carro de Julita. Julita bateu com o carro na moça e atropelou-a. A mesma ambulância que assustou a prostituta, viu a cena pelo retrovisor, voltou e levou-a para o hospital.
A moça não sofreu nada de grave, mas já no hospital começou a ameaçar Julita, na tentativa de estorquir dinheiro, como se ela tivesse sido culpada.
Ao longo da nossa amizade e convivência, muitas vezes tivemos essas comunicações mentais. Tenho-as também com meu marido, com alguns amigos.
Muitas vezes, prevejo coisas próximas, descrevo coisas que minutos depois alguém vai ver numa revista. Não é nada de mais, mas é muito freqüente.
Os livros já falaram comigo, já caíram da estante na minha mão, abertos na página certa para responder a uma pergunta que estava na minha cabeça, já vi coisas do passado alheio.

Muitas dessas experiências aconteceram durante um período muito forte da minha vida, oscilando entre a dor e a felicidade, do começo a meados dos anos 80. Especialmente em Campos de Jordão, onde tive uma casinha e praticamente morei durante mais de um ano. Coisas mágicas aconteceram lá, onde não tive um filho, mas escrevi muito e plantei bem mais de duas mil árvores.


Capítulo 08 -Hoje é um dia inesquecível.

Tenho o péssimo hábito de não colocar a data em nada. Mas esta data eu quero registrar, 26 de outubro de 2000, porque vou usar este texto para perpetuar um momento que ficará impresso em mim por toda a vida, mas que de tão vivo, encheu algumas centenas de pessoas de sementes de humanidade, prontas para serem semeadas a partir de agora.
Quando eu entrei na Rede Mulher, no final de 1995, conheci Dulce Ramos. Eu era diretora artística da emissora que, na época, pertencia à família Montoro, cuja sede era em Araraquara, e Dulce foi mostrar o seu trabalho para mim. Eram cartões tridimensionais, lindos e delicados, extremamente bem feitos, montados por presos do Carandirú. O projeto chamava-se “Um sonho de liberdade” e a cada três dias trabalhados, um dia de pena era abatido.
Fiquei encantada com Dulce, com a qualidade do trabalho, com sua coragem e com a beleza do projeto. Pautei-a para apresentar seu trabalho no então carro-chefe da emissora, que eu criei e batizei de “Universo Feminino” e convidei Dulce para o programa Via Satélite, que eu apresentava à noite.
As pessoas foram ficando cada vez mais interessadas no trabalho da Ramblas, principalmente porque dava uma nova dimensão para que olhássemos os presos de uma forma nova, especialmente quando as pessoas descobriam que os ‘monstros’ que vemos na TV correspondem a uma minoria, talvez 5%, de um contingente de dezenas de milhares de presidiários. Entre eles, homens que cometeram pequenos delitos, que nunca mataram ou torturaram, que não seviciaram ou estupraram, nem seqüestraram ninguém. Alguns, inclusive, devido a nosso eficientíssimo e incorruptível sistema judiciário, são presos por engano, são inocentes úteis. Mas o preconceito e o descaso da sociedade, muitas vezes incumbem-se de oferecer condições tão sub humanas nos cárceres, que acaba por garantir que até um inocente se transforme num futuro criminoso.
Fizemos uma reportagem no presídio do Carandirú e aprendemos muita coisa, como por exemplo, que não se pode entrar no presídio de calça bege, pois esta é a cor dos uniformes dos presos. A equipe e a produtora, Raquel Zimmerman, voltaram energizados com a experiência de gravar o trabalho dos presos de Dulce para a Ramblas.
No Dia Internacional da mulher, 8 de março, decidi que os cartões da Rede Mulher, seriam feitos por Dulce. Escrevi um texto especial , que até hoje está no ar na Internet, graças à gentileza de Dulce. O cartão continha uma flor em três dimensões e o texto do cartão dizia:
“Aceite esta flor, montada por detentos, como símbolo da liberdade, do amor e da compreensão, talvez os maiores dons de uma verdadeira mulher”.
Homenagem da Rede Mulher de Televisão às mulheres de todo o mundo”
Desde então, encampei a causa da Dulce. Até meu marido chegou a visitar o presídio como psiquiatra para oferecer trabalho voluntário.
Passou-se o tempo, fui para a Record,saí, continuei na Rede Mulher e durante o tempo em que fiz o Via Satélite, entrevistei Dulce duas outras vezes. Descobri que sua filha também estava trabalhando com os presos, montando bibliotecas. O encanto aumentou ainda mais. Em junho saí da Rede Mulher.
Mas como Deus sabe o que faz, quando isso aconteceu, em julho, eu já estava trabalhando na NewCommBates, a agência onde trabalho, a convite de Walter Longo e Roberto Justus, ambos ex-patrões ao longo da minha carreira como redatora e criadora.
Assim que entrei na NewComm, surgiu uma concorrência para ganhar uma conta muito importante, que aliás, ganhamos, mas não posso declarar ainda por um problema ético. O anúncio será feito na segunda-feira, quando o cliente terá avisado as outras agências que não foram selecionadas. Precisávamos de um convite para o projeto e eu logo lembrei de chamar a Dulce da Ramblas. Como leonina, meu adjetivo principal é ‘fiel’. Sou fiel até a morte com as pessoas que amo e respeito.
Dulce então, voltou à minha vida. Apresentei-a a todos e meus colegas ficaram igualmente entusiasmado com seu trabalho, pela qualidade e pelo significado.
Logo em seguida, Dulce me contou que havia a possibilidade de concorrer ao prêmio Cláudia deste ano e ela perguntou se eu a recomendaria, se enviaria o meu aval, já que o prêmio é nacional, muito sério e exige que as pessoas apresentem recomendações.
Caprichei no texto e na verdade, para falar de Dulce ao representante da Abril. Admiro muito a revista Cláudia, já entrevistei várias vezes a maravilhosa Célia Pardi, a grande responsável pela revista.
Comecei então a minha torcida por ela. Mandei o email com a recomendação. E soube que ela foi aceita. Vibramos. Continuamos nos falando.
Pouco tempo depois, recebi um convite que reconheci como sendo exclusivo da Ramblas, patenteado. Era o convite de lançamento da Revista Uma, da Editora Símbolo. Fiquei indignada, pois o convite não dizia nada sobre a Ramblas ou a montagem por presidiários. Liguei para Dulce e soube que alguém havia feito a um orçamento com Dulce, roubou a idéia, e mandou outra gráfica executar o projeto, cuja patente é da Ramblas. Enviei os convites como prova e Dulce vai tomar as providências contra a revista. Tem gente que é assim, que não se importa nem de roubar dias de liberdade de presos que trabalham.
Pouco tempo depois, Dulce me ligou dizendo que havia sido selecionada. Recebi o convite para o dia do prêmio e jurei que eu iria. Dulce passou um fax com o discurso que faria, caso ficasse entre as finalistas. Li, gostei, aprovei. E ficamos na espera.
Esta semana, chegando a data da grande noite, vi uma foto de Dulce no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo e tive um bom pressentimento.
Chegou o dia do prêmio. Eu estava muito nervosa, porque eu tinha uma reunião na agência que terminaria às 7:00 horas, e eu teria pouco tempo para chegar em casa, tomar banho, me trocar, me arrumar, e ir até o teatro Alfa, que eu não conhecia.
Começou então a dar tudo errado. A reunião acabou depois das 8. Eu não podia sair da sala. Quando terminou, saí voando. Chovia. O trânsito estava um inferno. Cheguei em casa às 8:40. O coquetel começava às 8 e o prêmio, às 9. Em 10 minutos eu estava pronta, sabe-se Deus como. Resolvi pegar um táxi e fui correndo de salto alto até o ponto. Meu marido só sairia do consultório depois da 9 e combinou que não poderia me levar. No ponto de táxi, tive uma crise. Nenhum dos motoristas sabia onde era o teatro. Tive uma crise. Voltei pra casa e decidi esperar meu marido chegar porque eu estava muito nervosa e não queria nem dirigir e nem ir sozinha. E jurei que não iria faltar na noite mais importante da minha amiga.
Isaac chegou, eu já havia separado a roupa para ele vestir e saímos. Chegamos ao teatro Alfa às 9:50. Entramos sorrateiramente e sentamos na penúltima fila do teatro, uma coisa linda.
Os apresentadores, Glória Maria e Rondino, ao vivo, anunciavam que mostrariam o vídeo com as 15 mulheres concorrentes. Eu não imaginava a emoção que seria ver o trabalho dessas mulheres.
Comecei a chorar desde o começo, porque a gente não imagina quanta gente boa tem nesse país, fazendo trabalhos humanos.
Quando vi o vídeo da Dulce, senti um grande orgulho e comecei torcer os dedos para dar boa sorte.
Após as 15 selecionadas, seriam apresentadas as 5 finalistas. Começou com Nazaré Imbiriba, uma mulher que cuida de 110 comunidades pobres do Pará ao Amapá, no projeto Poema, Pobreza e Meio ambiente do Pará. Uma mulher baixinha mas muito forte, que diz que não dá pra ter discurso ecológico onde há fome.
Aplaudida, foi ao palco e agradeceu.
A segunda selecionada foi Candelária, apelido de uma ex-menina de rua, ex-prostituta, que hoje apóia as prostitutas de Aracajú no Sergipe, distribuindo camisinhas, ensinando as mulheres a prevenirem doenças. Sua simplicidade e sua emoção fizeram todo mundo chorar. Quando subiu ao palco, e recebeu o prêmio das mãos de Marília Pêra, ela tremia. Não se pode imaginar o que é ser uma ex-prostituta em Aracajú, numa noite de gala, sendo homenageada em São Paulo, por uma platéia seleta que a aplaudia de pé.
Veio então a minha primeira grande emoção. Quando o vídeo mostrou as grades, eu sabia. Era Dulce. Chorei, aplaudi, gritei seu nome. Ela então subiu ao palco, leu o discurso que me passou antes por fax. No texto ela relembrou o massacre do Carandirú, quando 111 homens foram executados covardemente. Entre eles 40 funcionários de Dulce. Foi um discurso muito profundo e para completar, uma surpresa. Na lista de agradecimentos, falou meu nome. Foi um prêmio para mim. Meu coração foi tomado de uma alegria por ela que me fez correr pelo corredor para abraçá-la, assim que ela desceu do palco para seu lugar.
Veio então Lisaura Ruas, uma senhora maravilhosa, que há 30 anos trabalha em Niterói reabilitando de deficientes. No meio do vídeo o depoimento de um rapaz, vítima da Talidomida, com aqueles bracinhos curtos, ao lado de uma piscina, dizendo que era uma pessoa de sorte, por ter encontrado aquela entidade que o ajudou a ser a pessoa que é. O imenso auditório era uma só comoção. E quando Lisaura Ruas subiu ao palco, André foi chamado. Com seus pequenos braços atrofiados, ele, que é campeão de natação, segurou e entregou o prêmio a Lisaura. Foi lindo.
Como foi lindo ver 7 mulheres, cientistas, bolsistas da Fapesp, que decifraram o código completo da Bactéria Xyllela Fastidiosa, que ataca os laranjais. Sete mulheres cientistas, brasileiras, do projeto Genoma, que colocaram o Brasil no primeiro mundo.
A orquestra ao vivo então, tocou uma música de Caetano, para que preparássemos o espírito para a grande finalista da noite.
Meu marido já estava querendo ir embora, porque à meia noite de quinta para sexta seria seu aniversário.
Mas eu precisava esperar. Roberto Civita então, subiu ao palco para falar deste prêmio e de sua visível comoção em relação às mulheres que fazem esse trabalho invisível e maravilhoso. Civita chamou Célia Pardi para chamar a grande finalista da noite, para receber o Prêmio Cláudia 2000, o último do nosso milênio.
E Célia Pardi anunciou que a vencedora era…Dulce Ramos!
Não sei se eram 2, 3 mil pessoas, em pé aplaudindo Dulce, como eu, chorando, emocionadas.
Dulce subiu ao palco e mal podia falar. Mas dedicou a todos os que tem coragem de ver que somos todos humanos. E chamou ao palco, um ex-presidiário, que cumpriu 5 anos de pena, e que há 10 anos é soropositivo de HIV e trabalhar com Dulce desde o começo de seu projeto.
Vendo aquele homem, humano, chorando, soube que vamos ganhar. Senti que todos esses homens podres, como Maluf, como Cacciolas, como Lalaus, todos esse ambiciosos corruptos, como Viscomes, como Vitas e Pittas, que só pensam em si, no dinheiro, no poder, que roubam para produzir miséria, como todos os mentirosos que vendem a alma para aliciar a ignorância, que acham que prostitutas não são seres humanos, que presos não são seres humanos, que homossexuais não não seres humanos, não são para sempre.
Reuni coragem para acreditar que é só uma questão de tempo. E que vamos sim, criar um mundo mais justo, especialmente com as mulheres tomando as rédeas de muitas atividades ligadas ao poder.
Senti orgulho de ser mulher, de abraçar aquela ex-prostituta de Sergipe e chorar com ela, de abraçar Dulce no saguão, no meio de todas as luzes das câmeras, de abraçar sua filha, seus funcionários.
Saí de lá com os olhos borrados e alma renovada. Fiquei orgulhosa de mim, por não ter desistido de ir, por ter sido fiel à uma amiga tão boa, por ter insistido em levar meu marido comigo, que também voltou com o coração elevado.
Hoje, eu vou dormir com a alma plena e vou pedir a Deus, que ilumine a todos os seres deste planeta, para que voltem a sentir a presença divina em seus espíritos, para que um vento lhes devolva a capacidade da compaixão e para que uma vez iluminados, olhem ao redor e vejam que somos todos, seres humanos.
Igualdade, fraternidade, liberdade. Esses são os ideais da revolução francesa. Esses devem ser os ideais de todos nós, brasileiros. Esses devem ser os lemas de uma revolução sem armas, mas com muita coragem e humanismo, uma revolução que vai derrubar para sempre os podres poderes dos homens vis.
E pelo que senti, essa revolução já começou. Com mulheres de fibra, como as que vi esta noite. Mulheres capazes de amar.

Minha Vida Comigo – até o cap. 04

Todo mundo quer escrever uma autobiografia, nem que seja a própria. Atire a primeira página amassada quem nunca tiver tentado. Como costumo dizer, escrever uma autobiografia é a coisa mais fácil do mundo; difícil é encontrar quem leia.

O primeiro problema intrínseco da autobiografia é a compulsão que todos temos para mentir e fantasiar nossas lendas pessoais. Quando você senta e começa de fato a escrever sua história, subitamente as tias feias e ranzinzas viram princesas austríacas, sua mãe sempre foi amorosa e gentil e seu pai, o homem mais honesto do mundo. Parecem aqueles testes de vidas passadas onde todos fomos imperadores, reis, rainhas e sacerdotes. Que, aliás, deveriam andar a pé e viver sempre dentro do castelo, já que ninguém foi ferreiro, carregador de estrume, porteiro de ponte levadiça.

Há também o efeito contrário. Você transforma seu irmão num criminoso, o poodle vira pitbull e antes que você chegue ao final do primeiro capítulo já terá cometido suicídio literário. De qualquer forma, não há autobiografia isenta, já que o autor sempre mete o bedelho na vida do biografado.

O segundo problema é a linearidade. Não há pesquisas, mas suponho que a quase totalidade de tentativas de iniciar uma autobiografia comece do nascimento pra trás. Ou se começa com os avós imigrantes chegando de navio, ou com os pais se conhecendo ou o médico fazendo seu parto. Os mais engraçadinhos começam com o encontro do espermatozóide fertilizando o óvulo da mãe. O que me faz lembrar daquela piadinha do espermatozóide cansado de nadar que se vira para o colega ao lado e pergunta se falta muito para chegar aos ovários. E o outro diz que falta muito, sim, pois acabaram de passar pelas amídalas.

Existem muitos outros problemas, barreiras e dificuldades para prosseguir com a tarefa. A idéia de produzir uma obra em vida que um dia será póstuma, dá um caráter pesado ao texto. Buscamos termos eruditos, palavras bonitas e frases de efeito.

Eu mesma fiz uma frase de efeito para incluir na minha história:

-“Minha vida é um livro aberto, com várias páginas que eu mesma arranquei.” Além do texto que falta, ainda tem todos aqueles que foram expulsos a tesouradas dos meus retratos.

É com essas cúmplices mãos que escrevo agora, dando início, enfim, a este romance, Minha Vida Comigo, a primeira autobiografia não-autorizada, já que não tive meu consentimento oficial para publicar as revelações que se seguem. Inauguro assim a primeira página desta obra aberta e, Graças a Deus, inacabada.



O prefácio, que nem sempre é fácil!

Não gosto de prefaciar livros, especialmente os meus. Em geral, quem faz o prefácio é alguém próximo ao autor o que não é o caso. Mas, por falta de tempo hábil e excesso de texto inábil,

não tive outra opção senão fazê-lo. Por isso estamos aqui. Estamos, plural de majestade.

Este, porém, não é um livro comum. É uma obra totalmente diferente das outras obras literárias, como os romances que todo mundo compra e ninguém lê. Este é um livro que ninguém vai comprar, em primeiro lugar. Muito menos ler.

Mas, tudo tem um lado bom e, nesse caso, é o lado de fora. Da capa pra fora, o mundo é realmente lindo. Talvez você esteja se perguntando porque este prefácio é tão azedo. Simples: porque ainda não amadureci a idéia de ser obrigada a escrevê-lo.

Finalizando, quero deixar bem claro que diante do tribunal, negarei tudo o que estiver escrito entre as duas orelhas deste livro. Porque toda biografia é sempre uma ficção. Porque todos os que são citados um dia não estarão mais sobre este planeta. E depois de alguns milênios já não se pode mais ter certeza de nada que tenha ou não de fato acontecido. Viver é uma questão de tempo. Aproveitemos cada instante de nossas vidas, pois, tentando retardar o instante seguinte.

S.Paulo, 24 de março de 2000.

Rosana Hermann

Como tudo comecei.

Viver comigo não tem sido fácil. Meus defeitos são tantos, tão poderosos, tão complexos, que juntando todos eles lado a lado, minha alma viraria um álbum de figurinhas dos pókemons.

Não sou má pessoa, não. Mas não sei cuidar de ninguém direito. Nem de mim, nem de coisa alguma, viva ou morta. Me dê uma samambaia pra regar enquanto você viaja e encontrarás na volta um xaxim encharcado de lágrimas. E se me puseram para vigiar uma múmia no sarcófago, aposto que ela sai de lá antes que eu.

Não ocupo nenhuma posição de destaque nos arredores do apogeu, mas tenho certeza que bastaria eu abandonar a vaga para aparecer uma vara de inimigos disputando meu lugar. Só de ódio, vou me valer da lei da física que garante a impenetrabilidade dos corpos e ocuparei meu espaço nesta vida até o último suspiro; ou até o último brigadeiro, dependendo da sobremesa servida.

Sempre fui mais inteligente do que a média, o que não é nenhuma vantagem porque a média, para mim, é café-com-leite. Mas a lei da compensação fez com que eu não estivesse na lista das dez mais bonitas, nem da cidade, nem da escola, nem da classe, nem de nenhum grupo, inclusive os que só tinham 9 garotas.

Freqüentei escolas por mais de vinte anos, fiz incontáveis cursos, dei aulas de inglês durante mais de uma década, leio e pesquiso há um quarto de século. Mas meu maior orgulho intelectual é ser capaz de manejar o garfo e a faca sem jamais ter cortado os pulsos ou furados os olhos, nem os meus nem os de ninguém.

Como todo mundo, comecei com uma mão na frente e outra atrás. Ocorre que, por ser redatora, as contingências do trabalho me forçaram a usar ambas as mãos no teclado. Sem outra alternativa, tive dois filhos, sou casada e sou feliz.

Muita gente me pergunta como eu cheguei aonde estou hoje. É uma pergunta muito difícil de responder, pois, pelos meus cálculos, desde que comecei a andar, venho desenhando um percurso bastante aleatório sobre o globo terrestre. Já tentei traçar a rota que me trouxe até aqui, neste momento, mas a brincadeira de ligue-os-pontos sobre o planeta não formou nenhuma figura concreta. Assim sendo, não sei que diferença faz onde estou se, a qualquer momento posso sair daqui rumo a alhures.

Por falar nisso, outro dia eu ouvi uma atriz de tv de quarto escalão, explicando a um crítico de quinta categoria porque as pessoas a caluniavam. Juntando letras, ela tentava explicar por telefone, ao vivo, que quase todos a invejavam por ela ter chegado aonde chegou. Fiquei muito intrigada em saber de onde ela estaria ligando. Do Everest, pensei, mas tenho quase certeza que os telefones celulares não pegam lá em cima. Enfim, vamos ao começo. O começo por assim dizer.

É surpreendente pensar que o mundo existe independente de nossa existência. Surpreendente e incompreensível pois para cada um de nós, a morte é o fim do mundo. Morrer é a pior coisa que pode acontecer na vida de alguém. Deve ter sido baseado nisso que criaram toda a produção cultural do terror. Porque se a morte é a pior coisa da vida, pior que a morte só o que vier depois. E assim surgem os vampiros, os mortos-vivos, as almas penadas e todos os políticos eleitos por votos comprados.

Dizem que todo o começo é difícil e é exatamente por isso que é sempre melhor começar pelo meio ou pelo fim. Dizem também que em alguns casos, os fins justificam os meios. Se assim raciocinarmos, então, os meios justificariam os começos e os começos justificariam os fins, tornando a coisa toda cíclica. É exatamente aí que queríamos chegar, o ciclo.

Tudo é cíclico. Tudo. E o que não parece ser, apenas não avançou o suficiente pra chegar ao último estágio, ir adiante e voltar ao primeiro. Até o big bang, a explosão que teria dado origem ao universo, é cíclico. Vamos encolher e explodir e encolher e explodir, exatamente como faz nossa conta bancária quando vai a zero e estoura o limite do banco, para depois depositarmos um dinheirinho e chegarmos ao zero novamente.

Para muita gente, o zero é um mal a ser evitado, mas para a grande maioria dos saldos devedores o zero é uma meta a ser atingida. Exatamente como a mediocridade. Todos nós temos medo de cair na mediocridade, uma vez que julgamos estar acima dela. Ser medíocre é ser mediano, é viver na média. Só de ouvir já me dá arrepios, de tão horrível. Ver-se enquadrado naquelas estatísticas de que o brasileiro médio tem uma tv, uma geladeira e dois rádios. Dá vontade de sair correndo e dar o rádio pro primeiro que a gente encontrar na rua, só pra cair fora da média.

Neste momento, não estamos na estaca zero deste livro, uma vez que ele já foi iniciado. Não estamos no final pois esta obra mal começou. Estamos portanto, naquele lugar horrível, o lugar-nenhum, o limbo, mostrado nos filmes B como um pântano verde cheio de gosma ou de um poço de areia-movediça, de onde a mocinha sempre é salva com a ajuda de um lindo rapaz com uma vara longa, no sentido botânico, colocada no estúdio pelo contra-regras.

É com ajuda desta vara virtual, que vamos nos retirar deste pedaço horrível onde nos encontramos agora, rumo ao próximo capítulo, providencialmente chamado de Capítulo Um.

Capítulo Um.

Eu sou completamente louca. Louca, xarope, tantan, lélé, lesada da cabeça. Talvez a parteira tenha me deixado cair no chão, não sei, não me lembro. O que eu sei, o que todos me disseram durante toda a vida é que normal, não sou.

Meu marido, psiquiatra renomado, inclusive, já me aconselhou a tornar esse fato público, para a segurança de todos. Assim, estou pensando em adicionar uma assinatura padrão aos meus emails com os dizeres “por favor, não me trate como se eu fosse normal”.

Tomo café o dia inteiro. Tanto quanto sou capaz. Mas não gosto do travo que o café deixa na boca. É horrível, amargo, tem gosto de corrimão de prostíbulo. -Nossa, agora me deu um nojo, um asco de café… acho que nunca mais vou tomar um café! Por falar nisso, agora há pouco, eu sentei aqui no computador para escrever e encontrei um ‘mug’ com café frio até a metade. Dei um gole e senti a temperatura, a textura, o sabor e o cheiro da minha auto-estima. Bleargh. Na melhor das hipóteses eu me desprezo. Na pior, eu me suicido.

Mas, felizmente, Deus está em todos os lugares e em todo o momento, o que equivale a dizer que ele é infinito. Deus é o todo, o tudo. Isso sempre dá a maior confusão por causa da nossa natureza baseada na idéia de conter, contido, decorrente da nossa própria finitude, talvez, aparente apenas. Deus, então, nesse momento, se fez presente e me salvou de mais um gole rumo ao fim e me recolocou rumo a Disney. Não, Sidney.

– Que coisa, acabo de perceber que Sidney é um anagrama de Disney…

Deus me fez criar coragem, levantar e levar a xícara para a cozinha. Agora, me diga isso é normal? Fazer, falar sobre isso, é coisa de gente normal? -Não sei se você pode responder a esta pergunta, já que o fato de você estar lendo sobre isso é bastante comprometedor. Tem outro fator, confesso. Eu gosto de não ser normal. Todo mundo é um pouco assim, é normal. Também não é pra chamarem a gente de anormal. Aí já é ofensa.

Eu não fui uma criança normal. Minha primeira infância foi um filme de quinta com elenco de primeira. Nasci no Hospital do Parque da Aeronáutica, no campo de Marte, o que explica muito sobre meu jeito aéreo e marciano de ser. Durante os meus primeiros anos de vida, morei no Paraguai. Aqui, sem interpretações, please, minha infância foi pobre mas foi original.

Morei também durante um ano, dos 3 aos 4, na Florida. Miami ficou eternamente impressa em mim, a admiração por aquelas cores pastéis e o estilo decô. Até hoje penso nos flamingos como anjos pernaltas. Mas depois dessas andanças internacionais, fui parar na periferia do Rio de Janeiro, em Santa Cruz. A rua se chamava Cruz Alta e terminava num cemitério. Meu vizinho à esquerda era um marinheiro que contava histórias para todas as crianças da rua, reunidas à noite e ensinava a fazer nós com cordas. Na esquina, do mesmo lado da rua, morava um erudito baiano, seu Mirabeau, um devorador de livros. Nunca conto isso porque parece mentira, mas do outro lado da rua, havia uma senhora chamada Dona Celeste com cabelos brancos em coque, parecendo a Vovó Donalda e, a seu lado, um criador de jibóias. Quem vai acreditar. Mas é verdade.

Também era verdade que a casa onde eu morava era pequena e estúpida. Foi construída por pessoas totalmente idiotas que colocaram todos os ferrolhos, maçanetas, trincos, chaves de cabeça para baixo. Não satisfeitos, colocaram as janelas ao contrário: as venezianas abriam para dentro da casa. Minha mente racional sofria muito. Sofria mais ainda com os vizinhos de cima, os donos da casa,imigrantes portugueses, que tinham uma filha menor que eu, bem pequena, a quem aprendi a odiar. Odiar, mesmo, por razões ecológicas e humanitárias. A pequena criatura tinha por hobby cortar o pescoço de pintinhos de um dia com a tesoura de sua mãe. Os pais, deviam achar lindo ver os pintinhos degolados pois toda semana, no dia da feira, compravam um novo loto de revolucionários franceses amarelinhos para ela. Não vai aqui nenhuma associação étnica, não acredito que a psicopatia por degolar pintos tenha associação a nenhuma origem específica. Doença mental não é privilégio de nenhum país ou povo é privilégio da raça humana, mesmo.

Atrás da minha casa havia uma família onde todos tinham nomes começados com a letra “D”. Dilzete, Dilzéia, Damião e outros que não me lembro mais. Só sei que eles davam grandes festas com doces gratuitos no dia de São Cosme e Damião. Tudo era feio na rua, na casa e nos arredores. Feio e pobre. Mas eu era livre. Totalmente livre. Podia andar pela rua de terra, descalça, pisar nas poças, brincar de sentir medo indo até a porta do cemitério. Podia andar longe até as construções abandonadas do Rio Guandú, ou arredores, entrar nas galerias escuras. Podia subir nas árvores, fazer guerra de mamona. O caule do pé de mamona servia de canudo para fazer bolhas de sabão na canequinha. Plantei um árvore no minúsculo jardim da casinha simples onde morávamos, meu pai, minha mãe, minha irmã e eu. Uns vinte anos depois fui ver a árvore.

Estava enorme. Mas na segunda visita, ela não estava mais. Cortaram. Garanto que foi aquele monstro degolador de pintos. Houve um período de transição entre morar na periferia do Rio de Janeiro e a de São Paulo. Embora tivesse 6 para 7 anos eu ainda não havia estado na escola, nunca, desde o nascimento. Minha mãe, que só foi para a escola durante 4 anos de sua vida, não achava muito importante.

Minha irmã, que é cinco anos mais velha, adorava a escola. Queria ser professora e treinava seus talentos comigo. Teria sido uma professora muito enérgica. Ficava muito brava se eu não aprendesse alguma coisa e para me salvar de sua ira, eu aprendia. Quando minha mãe finalmente me matriculou no segundo ano, no Liceu Brasil, em frente ao lago de Vila Galvão, no município de Guarulhos, eu já sabia calcular os mínimos múltiplos comuns e máximos divisores comuns.

Somava frações, lia e escrevia. Era estranho entrar no segundo ano, mas a escola era tão capenga que não criou nenhum problema. Capenga mesmo, porque minha primeira professora, D. Mariza, dava aula para duas turmas ao mesmo tempo, na mesma sala. Metade da classe era composta por alunos da 2a. série primária, onde eu estava, e a outra metade, alunos de 3.série. Eu, já treinada por minha irmã, fazia a lição da minha série rapidamente para poder acompanhar a aula da outra turma. Acabei aprendendo as duas séries em uma só. E fiz minhas próprias descobertas, que ainda não estavam no currículo de nenhum das duas turmas.

Um dia escrevi os números de 1 a 10 , numa tira de papel, à lápis, bem forte. Dobrei-a ao meio E percebi que o 1 e o 10,somavam 11. A mesma coisa com o 2 e o 9, o 3 e o 8, 4 e 7, 5 e 6. Achei curioso este fato, que todos os números de 1 a 10 juntos correspondiam a 5 vezes a soma 11. Portanto, 5×11=55, seria a soma de todos os números de 1 a 10.

Era fácil perceber a fórmula para somar todos os números de uma P.A., progressão aritmética: o primeiro número, mais o último número, multiplicado pela metade da quantidade de elementos, uma tira dobrada. Anos mais tarde fui oficialmente apresentada à fórmula da soma dos elementos de uma P.A, S=(A1+An) x (n/2) Eu não era um gênio ou um monstro, eu brincava de bonecas, jogava pião, desenrolava tatu-bola, fazia experiências químicas. Aprendia tricô com minha avó, bordado com minha tia. Minha tia me obrigava a mostrar o avesso do trabalho para ver se estava bom. E se não estivesse, como nunca estava mesmo, ela me humilhava. Até hoje não sei bordar, mas sou uma exímia tricoteira. Entendo o tricô, compreendo a trama dos pontos. Corto, aumento, diminuo, pinto e bordo no tricô. Sei fazer crochê também. Não sei bem com quem aprendi a fazer crochê, mas acabei vivendo desse trabalho durante muitos períodos da minha vida. Inclusive, no Canadá, onde morei durante dois anos, naquele período essencial, a pré-adolescência.

Nessa época eu tinha como filosofia de vida que a miséria era a mãe da criatividade e coletava as argolinhas de metal de abrir latas de refrigerantes para uní-los todos com uma trama de crochê e produzir bolsas. Fiz muitas bolsas na vida, com patchwork de jeans, com espelhos quebrados finamente bordados sobre o tecido, com miçangas e sementes de colares arrebentados. Era o princípio de Lavoisier intuitivamente aplicado ao artesanato e à falta de grana. Mas o artesanato não foi o destaque do meu desfile nos dois anos em que me senti desfilando na Sapucaí de Toronto. Quando se tem 12 anos, dois anos tem um grande significado ainda mais quando se está num país considerado o melhor em qualidade de vida. Há cinco anos consecutivos o Canadá é considerado pela ONU o melhor país para se viver. Em Toronto, onde morei, os espaços da cidade são quase celulares. Para um determinado número de quarteirões, há um centro comercial, uma biblioteca, um centro de recreação. O traçado das ruas é quadriculado e permite que os ônibus transitem em dois sentidos, norte-sul e leste-oeste Para ir a qualquer lugar você pega um ônibus num sentido, desce no cruzamento e pega outro na transversal. Tudo tem lógica, nexo. Claro, tem o inverno, o vento de 120km por hora, o frio de mais de 30 graus abaixo de zero. O inverno é longo, mas todos os ambientes são aquecidos. É um país de imigrantes, com todas as etnias misturadas. E, estranhamente, todos se respeitam. Tudo é absolutamente limpo. Ninguém joga papel na rua, ninguém arranca as tulipas dos jardins públicos, ninguém cospe no chão. Ninguém em termos, porque a comunidade latina masculina mantém sua tradição obscena e se coça publicamente, entre outras coisas.

Exatamente por causa dessa diferença cultural o dia da minha volta ao Brasil ficou marcado. Eu me lembro de estar com os olhos inchados de tanto chorar, dentro do carro, voltando do aeroporto para a minha antiga casa. Eu olhava a avenida 23 de maio, que liga o aeroporto de Congonhas, que era também o aeroporto para vôos internacionais nos anos 70, ao centro da cidade, e achava tudo horrível, tudo sujo, feio.

Meu coração apertado doía porque aquela sujeira era a minha verdadeira pátria. O Canadá era o estrangeiro. Mas eu não queria ser aquela rua imunda numa cidade cinza e poluída, eu queria ser o jardim de tulipas, as bibliotecas públicas, o povo rico. Mas o ser humano se adapta rapidamente e menos de um mês eu já era a ‘Canadense’ do colégio Otávio Mendes, na zona norte de São Paulo, e passava cola em todas as provas de inglês do professor Mello. Professor Mello, Vivaldo… Coincidentemente, ontem eu recebi um email do Paulo Eduardo de Oliveira , que estudou comigo, relembrando esses mesmos professores. Ele encontrou meu email na revista Veja, desta semana, sobre corrupção. Eu participei do fórum on-line promovido pela revista e meu email foi um dos tantos selecionados pelo Laurentino Gomes, editor executivo da revista.

O fotógrafo veio, fez a foto, tudo muito rápido. Meu endereço foi publicado e agora, muitos amigos que nem sabem onde estou o que faço, me encontraram novamente. Só quem não foi pra escola é que não tem sua lista de professores inesquecíveis. Em geral, há sempre um, que é o mais marcante, o eleito. A minha eleita foi a D. Mariza, do meu primeiro ano da escola, o segundo ano primário, sobre a qual eu já falei brevemente.

Mas ela merece um capítulo especial. E é por isso, que a ela, eu dedico o capítulo dois. D. Mariza, vamos lá.

Capítulo Dois.

D. Mariza me deu meu primeiro livro. Tinha um gato na capa. Foi o único gato que eu soube desenhar durante trinta anos. Todos os gatos são aquele. Nunca tive outro gato. Sou leonina e sou fiel. A meus amigos, amores, familiares, professores, livros. Ela usava um cabelo alto, desfiado, típico das mulheres dos anos 60. Eu a achava linda e queria ser como ela. É engraçado pensar que só conto com minha memória para montar esse quadro. Teoricamente, eu poderia pesquisar, procurar os arquivos públicos do município de Guarulhos, encontrar o nome completo da professora Mariza, do curso primário do Liceu Brasil, ano de 1965, bairro de Vila Galvão. Traçar seu paradeiro, procurar suas fotos. Encontrar em sépia sobre papel fotográfico. Mas nada seria como minha memória colorida. Não havia vídeo na época. Nenhum de nós tinha uma câmera de filmar em 8mm ou em 16. Essas coisas que moram na cabeça da gente não estão em lugar nenhum. Talvez no arquivo de Deus. Seria uma boa opção para o paraíso. Já pensou? Você encontrar o arquivo da sua vida, com seu filme completo? Em tempo real? Gente, eu ía querer uma ilha de edição pra poder cortar um monte de coisas!!!! A menos, é claro, que cada um tivesse sua senha particular de acesso para ver o copião original… Muitos filmes de ficção já foram produzidos com esse tema porque todo mundo tem seu passado, todo mundo busca suas memórias, e todo mundo gostaria de poder ‘rever’ de forma ‘real’ o que ficou virtualmente gravado nas combinações físico-químicas do cérebro. Que riqueza enorme deve estar contida no nosso cérebro, todas as impressões, sentimentos, cheiros da infância.

Pode até ser que tenha um quartinho nos fundos da cabeça com informações de antepassados e vidas anteriores, mas eu não acredito. Acho que o cérebro vem como um winchester vazio quando a gente nasce, com o sistema operacional dos avós, pais e toda a informação genética. Digamos, o nosso hardware. Mas é o software que adicionamos, vivendo a vida, que realmente faz a graça de ser o que somos.

E o melhor é pensar que enquanto há vida, há espaço no disco rígido!!! A dona Mariza, minha primeira professora, ficou arquivada durante muitos anos, numa daquelas pastas da memória RAM, lá na rota 66, ano em que a vi pela última vez. Acontece que o mundo é uma bola, gira, e os ciclos, mesmo quando tem uma periodicidade maior que nossa linha de vida, existem. E de vez em quando, um deles nos envolve com sua linha imaginária. Foi o que aconteceu em 1992. Nessa época, eu estava trabalhando na rádio Jovem Pan FM, escrevendo humor.

O boi na linha ainda era sucesso e por tudo que eu produzi e pelo pouco que ganhava, era a ‘queridinha’ do Tutinha, o dono da emissora. Foi o Tutinha que me recomendou para o Nilton Travesso, famoso diretor de televisão, que hoje está na Rede Bandeirantes. Nilton quis me conhecer e lá fui eu, como sempre, recomendada por outro alguém. Ele tinha um projeto para um programa de variedades, que eu batizei de Almanaque.

Sempre fui apaixonada por almanaques e hoje, lamento que a Abril cultural tenha registrado este domínio na Web. Eu o queria pra mim. Formatei o programa junto com o Nilton, criei a maioria dos quadros, como a entrevista Video-Vida, que o Nilton adorou. Video-vida era um video em VHS, editado pela produção, com imagens da vida do convidado, de amigos e desafetos, do país e do mundo. Não era uma versão eletrônica do “esta é sua vida” do finado J. Silvestre, quadro, aliás, que eu escrevi para o Jota em 83 na Band. O Video-vida era mostrado num televisor, ao vivo, no cenário do programa e o convidado ía comentando as imagens. O programa tinha quadros, game, música, entrevista com médicos, números musicais, tudo.

Era maravilhoso. A apresentação era do César Filho e da Tânia Rodrigues. Antes do programa estrear, eu queria fazer um piloto de uma reportagem de humor, um jeito diferente de fazer matérias, sem compromisso com nada, nem mesmo com o nexo. Nilton pediu para que eu mesma gravasse a matéria que eu imaginei para que ele compreendesse do que se tratava e escolhesse a pessoa certa para ser a titular. Saí para fazer duas reportagens, uma na Prefeitura de São Paulo, outra no campo de treino do Corinthians. A da Prefeitura ficou hilária. Entrei por portões abertos, sem permissão, com a competente equipe acompanhando tudo. Achei um elevador privativo, tão minúsculo, que tive que abandonar a equipe e subir sozinha. A capacidade máxima era meia pessoa. Brinquei dizendo pra câmera que nem a Erundina, então prefeita, deveria caber alí. Hoje, este tipo de reportagem é comum. Todo mundo faz. Rogério Castilho, meu amigo, faz isso. A Regina, da CNTGAzeta, minha amiga, já confessou que inspirou-se exatamente neste quadro que eu fiz durante dois anos, a Repórter Isso, para fazer suas reportagens de humor. Depois, cada um desenvolveu seu estilo, mas tenho orgulho de ter sido inspiradora dessas coisas. Quando o Nilton viu as matérias, junto com outros profissionais, quase morreram de rir. Decidiram que eu também acumularia a função de repórter de humor, a repórter Isso, homenagem ao repórter Esso.

O quadro entrava no ar duas vezes por semana. Ou três. O lema da equipe era ‘jamais voltarás sem uma matéria’. Fizemos coisas absolutamente deliciosas. A situação da emissora era precária, muitas vezes não tínhamos nem dinheiro pra colocar gasolina na kombi. E quando o pneu furava, fazíamos a matéria sobre uma kombi trocando pneu no meio do trânsito. Tudo era lindo. Num desses dias, em que só podíamos ir até a metade da distância que o combustível permitia, estávamos na rua sem saber o que fazer e para onde ir. Decidi que seguiríamos um entregador de pizza para surpreender o solicitante com uma equipe de TV.

Deus participou e quando chegamos com uma câmera no ombro e uma pizza na mão, no apartamento de cinco jovens fisioterapeutas, encontramos muito mais do que uma grande surpresa e muita diversão. Ajudamos, com a reportagem, a divulgar uma para-olimpíada brasileira, que gerou patrocínio e ajuda para todos eles.

Fizemos centenas de reportagens ao longo de 92, desde roubo de carga de queijo, exposições, trânsito até a casa do Maluf. Atravessei a avenida Faria Lima imitando uma galinha, subi no muro de depósitos abandonados, fiz de tudo. No dia da grande manifestação popular dos caras-pintadas, pedindo o impeachment do então presidente da república, Fernando Collor de Mello, no vale do Anhangabaú, fui com a equipe para registrar este momento histórico e, claro, participar dele. Eu estava toda de preto, com detalhes verde-amarelo, muito emocionada, porque era aniversário do meu filho, Gabriel, que fazia 4 anos naquele dia. Gravamos a matéria com toda aquela multidão, entrevistando jovens, adultos, todos imbuídos de uma indignação comum contra o absurdo do governo Collor e já estávamos guardando o equipamento no carro para voltarmos à emissora. Eu estava aflita, porque queria voltar logo para produzir minimante um bolo para meu filho e comprar um presente. Foi quando uma mulher, chegou correndo, agarrou-me pelo braço e disse que tinha um menino de rua totalmente drogado caído no chão ali perto. E que a televisão tinha que ir lá fazer alguma coisa. A equipe ficou indecisa, pois não exatamente nosso tipo de trabalho, mas o coração falou mais alto. Catamos o equipamento e seguimos a mulher. Bem perto da li, caído no chão, um menino de no máximo 5 anos de idade, um menino de rua, sujo e cheirado de cola, passava mal, praticamente desmaiado, enquanto populares faziam aquela tradicional rodinha deixando-o na berlinda.

A mulher disse que alguém já tinha chamado a polícia. Ligamos a câmera e eu, muito tocada pela cena, peguei o menino sujo no colo e comecei a chorar, embalando-o. Alguém gritou “ele está sujo, deve ter piolho!” . Não liguei, peguei o microfone e comecei a falar. Disse que era o dia do aniversário do meu filho, que ele teria um bolo, um presente, uma mãe. Que o menino no meu colo não tinha nada. Nem amor. Nem colo. E não era um drogado, era um menino. Era um pequeno brasileiro sem chances. E que era contra isso que estávamos lutando. Que era por isso que estávamos todos na rua. Querendo um país justo com seus filhos, com educação, saúde, com um mínimo de amor. Chorei muito, embalando aquele menino sujo. Gravamos tudo. A polícia chegou. Desceram todos, um policial já foi pegando o menino do meu colo para colocá-lo na viatura. Segurei-o pelo braço e perguntei: “você tem filhos?”. “Tenho”, o policial respondeu. “Então, não faça com esse menino nada que você não faria com seu filho”. Os policiais levaram o menino, a roda se dispersou. Pedi a equipe que gravasse o viaduto do chá, de longe, com todos os caras-pintas. Eu queria editar aquela matéria com a música O Bêbado e o Equilibrista, caía a tarde feito um viaduto. Falando da anistia, de Clarice Herzog, do irmaõ do Henfil, de tante gente que partiu, morreu, com a ditadura. A matéria foi ao ar. Foi uma comoção. Não houve quem não chorasse. Foi escolhida como minha melhor matéria do ano. Foi reprisada. Eu estava no estúdio, vendo a reprise. O programa era ao vivo, transmitido daqui de São Paulo, na Cada Verde.

Vieram me chamar no estúdio. Tinha alguém no telefone, na maquilagem, querendo muito falar comigo. Atendi. Era dona Mariza. Minha primeira professora. Sua voz de senhora, chorando, mas muito digna, emocionada, me disse : -“Eu tenho muito orgulho de ter sido a sua primeira professora, que a alfabetizou, e de alguma forma, participou da sua história para fazer com que você chegasse a ser a profissional que é hoje, a mulher que é hoje, a cidadã que você é”. Chorei muito, muito. Fechei ali um capítulo muito importante da minha vida. Um capítulo escrito por caminhos tortos, cheios de pedras, mas que de alguma maneira confusa, me levaram para o lugar certo. Fecho aqui este capítulo também.

Capítulo Três.

A gente nunca sabe o que nos espera. Nunca. Não esperava receber o email que entrou em minha caixa postal, vinda da Leda Garcia Da Eira, brasileira que viveu muitos anos no Canadá e está voltando para o Brasil e deu um up-to-date na minha visão anos 70 do Canadá. Além da violência nos grandes centros como Toronto, dos pedintes de semáforo, saudáveis e cheios de piercing, a sujeira também se faz presente em cidades como Montreal, talvez, segundo ela, mais suja do que São Paulo. O Canadá não é o paraíso que a imprensa ainda descreve e que ilude milhares de imigrantes que insistem e acreditar que Shangri-lá existe.

Mas a USP foi Sangri-lá para mim. Aos 17 anos eu era uma adolescente alegre e despirocada, que costurava as próprias roupas em casa. Foi com uma blusinha de algodão xadrez, vermelha e branca, toda costurada com elastex, que conheci pela primeira vez o Instituto de Física da USP.

Graças a Leda, estou consciente de que o que vi em 74 não é o que está lá agora, mas acredite, não é tão diferente assim. Estive no Instituto de Física há poucos meses e mesmo com as mudanças físicas, novos prédios, outras caras, é o mesmo lugar.

Não importava mais naquele momento, a escada que me levou até lá. Eu tinha entrado na maior e melhor Universidade brasileira, graças a mim mesma. Nunca subi ao alto de um pódio mas os atletas devem sentir isso muitas e muitas vezes. Não é à toa que choram, ficam emocionados e estouram champagne. Eles, ainda, estão diante do público que os ovaciona. Eu, como sempre, estava sozinha. Parece outra incoerência, que eu, tão ativa, tão viva, energética e risonha, seja assim, sozinha. Hoje, vivo praticamente isolada com minha família. Não damos festas porque não temos quem convidar e não é raro perceber no carro, quando estou com o celular no viva voz, que não tenho ninguém para quem ligar a não ser para meu marido e meus filhos. Meus pais, talvez, mas com eles o assunto é sempre o estado de saúde.

Minha calça jeans era um caso à parte. Muito, muito justa. Meu peso podia não ser o ideal, mas eu estava bem e fazia questão de ajustar minhas calças para que ficassem com cintura marcada. Não há explicação possível, já que mudei muito de casa, de família, de cidade, de profissão nos anos que se seguiram, mas eu ainda tenho, na primeira gaveta do lado direito do armário, na minha casa de praia, os restos mortais dessa mesma calça, sob forma de um short. De vez em quando, quando estou acima ou abaixo do peso, pego o short praticamente podre e experimento minha forma de adolescente, só pra ver se a bunda entra e se a cintura fecha. Dependendo do momento, até entra. Nunca mais fechou o botão. Mas a esperança é a última que fecha.

.Capitulo 04

Atendendo a um pedido e duas ameaças, vamos ao capítulo 04

Entrei no Instituto de Física da USP, Universidade de São Paulo, no longínquo ano de 1975. Muita gente nem tinha nascido. Muita mesmo, quase 2 bilhões. De acordo com um dos meus sites favoritos, o Musée de L’Homme, a população do planeta aumentou em 54% nos últimos 25 anos. Se eu soubesse que tanta gente viria eu teria feito um bolo. Mas na época eu não queria saber da população do globo terrestre,eu só queria saber do mundo novo que se abria na minha vida e que além de uma carreira,uma profissão e um diploma, oferecia grandes possibilidades de… namorados.

Nunca fui bonita e se de vem em quando uma saia curta me cai bem, credito o efeito mais à roupa do que a mim mesma. Ser gostosa me parecia tão fora de cogitação que interna e inconscientemente nunca investi minhas fichas nesse tema. Porém, por um estranho e insondável mistério do cosmo, sempre fui muito bem recebida pelo sexo oposto e uma dezena de representantes do grupo já quiseram casar comigo. E metade teve êxito. Isso tudo, no entanto, viria depois do primeiro impacto que a universidade causou em minha vida.

Em 75 eu tinha 17 anos e morava com meus pais no bairro de Vila Galvão, Guarulhos, município da Grande São Paulo que na época não estava nem integrado à cidade. As ligações eram interurbanas e os números de telefone só tinham 6 dígitos e quando o táxi passava a ponte sob a Fernão Dias eu já sabia que o motorista cobraria 50% a mais da corrida. Safadeza, pois os 50% deveriam ser cobrados apenas sobre a curta distância entre a ponte e minha casa.

Até hoje sonho com aquele tele-transportador do seriado Jornada nas Estrelas, em que se entra num tubo virtual e depois de uma rápida desintegração, reintegramo-nos no ponto de chegada. Rezando pra que a mosca não entre conosco, como aconteceu no clássico filme preto e branco de mesmo nome. Se o forno de microondas tivesse essa função o trânsito de São Paulo estaria resolvido. Mas nos anos 70 o forno de microondas não existia e o único jeito de chegar de casa até a USP era ir de ônibus, pela linha mais longa da então CMTC, Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo, a linha Jaçanã-Cidade Universitária, que ía de ponto final a ponto final em meras duas horas e meia.

Mas eu não morava em Jaçanã, como dizia a letra de Trem das Onze, dos Demônios da Garoa. Eu morava em Vila Galvão e para chegar até o busum que levaria à Universidade, eu tinha 2 opções, outro busanfa ou uma carona com meu pai, de fusca e uniforme, que seguiria até o Campo de Marte,no Parque da Aeronáutica.

Não sei se devo mencionar o fato de eu ter que voltar da Física para casa o que significa mais duas horas e meia de trajeto e um total de 5 horas de viagem. Mesmo naquela época os dias também tinham 24 horas. E a melhor maneira de aproveitá-los um a um era acordar cedo.

Não sei a que horas meu pai preparava o café mas às 5:30 ele me deixava no ponto final do Jaçanã e seguia para o Campo de Marte, no Parque da Aeronáutica, em Santana. No inverno o dia ainda não tinha nascido a essa hora e o céu era coberto de estrelas. Eu, com uma mochila de lona velha nas costas levava uma raquete de tênis mais velha ainda para fazer aulas gratuitas no campus da USP. E, quando não havia lugar pra sentar, eu viajava no ônibus lotado, com gente batendo na raquete durante muitos kilômetros. E mesmo sem saber física eu sentia na cabeça a reação do cabo me batendo no crânio e foi mais pelos hematomas do que por falta de jeito que dois semestres mais tarde eu desistiria do curso nas quadras.

A Física era um lugar muito legal. Os professores pareciam todos cientistas loucos e os colegas, idem. Havia de tudo. Hippies velhos, gente rica, estudantes pobres do interior. Devo boa parte do que sou ao que aprendi na faculdade como jogar truco, aprender noções de bridge, treinar ping-pong. Aprendi muita coisa interessante sobre o universo também, o macro e o micro cosmo e durante muitos anos usei armas poderosas para impressionar as pessoas. Não é fácil resistir ao charme de uma conversa sobre física quântica e as experiências teóricas de Einstein e a relatividade.

A Física é realmente uma ciência encantadora, a mais filosófica das exatas. Sempre digo que a melhor coisa que fiz na vida foi ter feito física e a segunda melhor foi ter largado-a.

Durante a graduação, o curso de Bacharelado em Física, de 75 a 78, progredi bastante no que diz respeito ao transporte. Do Jaçanã passei para uma carona, da carona para um fusca velho próprio, meu super bólido branco que não subia ladeiras em geral e, finalmente, saí da casa dos meus pais, o que me garantiu muito trabalho, muito dureza e uma bicicleta para chegar às aulas.

Sempre trabalhei, desde que me entendo por gente. E não foi diferente durante todo o curso de física. Além de estudar, desde o primeiro semestre eu tive bolsas de iniciação científica, tanto do CNPq quanto da Fapesp. É engraçado ver hoje, o diretor mór da Fapesp, ex professor do IFUSP, o Perez, e ex-orientador do meu primeiro marido, físico-matemático. Também é curioso hoje, lembrar que a mesma Fapesp que era meu inferno quando chegava a época de entregar os relatórios semestrais da bolsa de pesquisa é hoje o site onde registramos nossos domínios.

Mais curioso, quando penso nisso, é ver na parede do meu escritório, alguns diplomas de participação de cursos com o Dr. Roberto Salmeron, um grande físico do CERN, exatamente o lugar onde a Internet foi concebida. É como se eu estivesse ligada à rede desde a adolescência. Ou pelo menos, aos computadores.

A PRIMEIRA SEMANA DE AULA – UM CHOQUE

Um choque. Não que eu estivesse no laboratório de eletricidade. Um choque cultural, de todas as formas possíveis e imagináveis. Na primeira aula de Física I, o professor, ou melhor, o mestre, falou algo sobre uma base neperiana, simbolizado pela letra ‘e’. Eu nunca tinha ouvido falar nessa palavra e, da carteira onde eu sentava eu entendi ‘leperiano’. Estava errado e por isso mesmo não consegui encontrar o termo na Enciclopédia Barsa.

De cara, no primeiro dia, eu que sempre fui boa aluna e menina inteligente, descobri que eu era absolutamente ignorante e que tinha feito um colegial fraquíssimo. Eu não sabia nada. Nada de nada. E ainda era virgem.

Esse detalhe foi resolvido no primeiro ano de faculdade mas não quero penetrar muito a fundo nele. O tema é por demais amplo para caber numa autobiografia genérica. O susto maior foi conhecer no primeiro semestre o computador, o maior da América Latina,que ficava na Escola Politécnica, a Poli.

Era uma sala inteira, uma coisa enorme. Para rodar os programas era preciso antes perfurar os cartões amarelos da IBM nas perfuradoras, com banquinho e teclado. Depois, era passar aquela pilha de cartões perfurados pela leitora e esperar o programa sair do outro lado em formulários contínuos. Era divertido.

Aprendíamos a linguagem Hipo, de hipotética, depois Fortran, depois Cobol. Aprendei a fazer algoritmos, a escrever alguns programinhas básicos. Se eu soubesse na época onde tudo iria dar eu teria me dedicado um pouco mais. Mas foi o suficiente para ser hoje uma mulher de 42 anos com um passado cibernético.

A física abriu minha cabeça, a USP, meu corpo. Não sei precisar o ano em que a piscina olímpica da Cidade Universitária foi construída mas como prestei o último vestibular de exatas, o MAPOFEI (Mackenzie, Poli, FEI), de 74 para 75, sei que foi depois disso porque eu vi a piscina sendo construída. E nadei muito, muito em suas águas.

Eu passava o dia inteiro na Física, a quem nunca me dirigi como ‘faculdade’. Era a Física mesmo. De manhã, eu fazia algum curso como tênis, ioga ou judô, que me foi muito útil para as crises de ciúmes. Uma vez peguei uma garota pela gola e joguei-a no chão ao vê-la abraçada com meu então namorado e anos depois, primeiro marido. O curso era gratuito mas os golpes funcionavam! O ciúmes eu venho tratando ao longo das últimas duas décadas e confesso, melhorou muito já que nunca mais cheguei as vias, nem as de fato nem as públicas. Na hora do almoço, diariamente eu ía para o CEPEUSP, o centro de práticas esportivas na USP, nadar meus dois kilômetros de crawl embalada mentalmente pela música dos Escravos de Jó.

Eu não tinha nenhuma intenção mântrica ou zen, eu apenas era louca mesmo. E enquanto os escravos de Jó jogavam caxangá seja lá o que isso for, eu tirava, punha, respirava e deixava nadar.

Foram anos e anos fazendo isso todo dia, exceto às segundas feiras quando a piscina fechava para manutenção. Acontece com quase todas as piscinas de clube também. Segunda feira, nada.

Fiz quatro anos de bacharelado em Física, mais dois anos de mestrado, mais dois anos na ECA-USP à noite, curso de comunicação social, oito no total. Mas freqüentei a piscina mais tempo do que isso, muito mais. Continuei indo como ex-aluna, regalia que perde o prazo depois de algum tempo, e como dependente, embora eu já estivesse separada do meu primeiro marido, professor bolsista do Instituto de Matemática da USP até hoje, eu continuava usando a carteirinha. Vou me lembrar desta nódoa pública quando me candidatar à presidência da República. Meus assessores me lembrarão de confessar esses pequenos deslizes antes que meus opositores o façam.

Não cheguei a ser uma eximia nadadora mas o esporte manteve meu corpo minimamente em dia para que eu pudesse participar de outra prática muito comum às garotas da piscina da USP, o topless. Sim, amigos da rede globo, eu fazia topless no final dos anos 70 e começo dos 80. Eu não estava com essas bolas todas que são vendidas em centímetro cúbicos de silicone hoje em dia. São tantas as mulheres que já colocaram que é surpreendente que ainda exista um par de seios originalmente de carne. Minha última surpresa foi descobrir que a Ana Maria Braga trocou suas próteses para que fiquem iguais as da Xuxa. E eu que nem sabia que o peitoril da dona Ana era comprado. Mas a autobiografia é minha e eu não quero falar delas por enquanto.

Durante o curso de graduação tive três orientadores, o Silvio Herdade, um senhor velhinho que provavelmente já deve ter ido encontrar os átomos do além, o João Arruda de Toledo Neto, que fumava cachimbo o tempo todo e esparramava fagulhas incandescentes num raio de dois metros a partir de seu centro geométrico, e o José Goldenberg, que não era exatamente meu orientador, mas com quem trabalhei um tempo como monitora.

José Goldenberg sempre foi importante na Física, era autor de vários livros didáticos, todos muito ruins. Na minha época, os livros bons eram os americanos e os russos, mas devido a desentendimentos entre as potências, era bom guardar os livros em prateleiras separadas.

Trabalhei sempre no mesmo lugar o Acelerador Linear, um laboratório subterrâneo onde vivia como uma minhoca. O nome da tese é vasto e complexo e eu já não tenho mais certeza da ordem das palavras. Mas é algo como “O efeito de quadrupolo elétrico na ressonância gigante por eletro e fotofissão do isótopo 236 do Urânio”. É algo que impressiona num primeiro momento. Num segundo momento, também, mas na prática a vida era bem mais simples.

Prá começar, não precisa ficar com medo do Urânio. Ele não morde, embora seja um ótimo nome para cachorro. Tudo bem, o urânio é um elemento químico radioativo, fissionável, usado em usinas nucleares, mas ele é bonzinho quando domesticado em laboratório.

Nosso trabalho era o seguinte: dentro de uma câmera metálica, bem no centro, o alvo, colocava-se a fonte de urânio a ser fissionada. Ao redor daquela espécie de panela metálica, havia janelas. Sobre essas janelas sobrepunha-se pedaços de mica, aquele minério em camadas, reluzente, outrora usado nos ferros elétricos.

O acelerador linear, com um feixe de fótons alvejava esse alvo de urânio. O coitadinho então, com aquela carga de energia toda, só podia se fissionar mesmo. Mas não sem antes entrar num certo ‘modo’ de vibração antes de partir-se. Esse modo de ressonância, de vibrar na mesma freqüência de um agente externo é um fenômeno do mundo clássico, esse onde escovamos os dentes e perdemos as chaves. Vou abrir um à parte para falar dele já já. A ressonância gigante como o nome bem diz, é este efeito amplificado. E o quadrupolo elétrico entra na história como uma descrição desse tipo de estado em que o núcleo do isótopo 236 do Urânio vibra antes de fissionar-se.

Depois que tudo se despedaçava, o que acontecia? Os pedaços do alvo fissionados faziam aquele ‘big bang’, e batiam em todas as janelas. Claro, é tudo muito pequeno e invisível. Por isso, recolhíamos as micas de acordo com os ângulos de espalhamento, atacávamos as placas de mica com um ácido para que as perfurações dos estilhaços fossem aumentadas o suficiente de modo a serem vistas no microscópio.

Mas era qualquer microscópio, era “O” microscópio eletrônico. Com esse microscópio de varredura, varríamos as plaquinhas de mica e contávamos os buraquinhos. Depois, estudávamos a distribuição de acordo com os ângulos.

Veja só que coisinha tão bonitinha do pai da Relatividade…Tanta empáfia por ser física, cientista e lá estava eu contando buraquinhos.

De vez em quando eu tinha meus arroubos infanto-juvenis de cientista e usava o horário do almoço, depois da piscina, para ver outras coisas no microscópio. Outras coisas incluiu uma vez, ver espermatozóides humanos. Conforme a luz batia, eles íam nadando e morrendo. Foi lindo e horrível, um genocídio.

E não me pergunte, please, como consegui as amostras. Sempre tem um voluntário disposto a sacrificar-se pela ciência. Como diz o meu amigo Flávio de Souza, no papel do Tíbio, da dupla Tíbia e Perônio, do Castelo Rá-tim-bum, “tudo pela ciência”.

Agora vamos ao já já e a beleza da Internet. Viva a Web, mesmo. No primeiro ano do curso de bacharelado, mostraram aos alunos um filme em 16mm clássico dos efeitos de ressonância, a destruição da ponte de Tacoma, ou Tacoma Narrow Bridge que depois de balançar como um elástico, com carros passando e tudo, despedaçou-se. Isso aconteceu em 1940 e impressiona muito, porque aparentemente, não se entende a causa. Na época era a terceira maior ponte suspensa dos Estados Unidos e havia sido concluída quatro meses antes do desastre.

Não foi por causa da Neuzinha mas foi por causa de uma brizola que bateu. A brisa, ou o vento, tinha a mesma freqüência de vibração natural da ponte. Você sabe, tudo vibra num certa freqüência. Por isso os soldados, que marcham na mesma freqüência de passo, ao passarem por uma ponte, mudam a cadência.

As fotos estão neste site onde você também poderá ver o vídeo em preto e branco, com narração original, ótima, ou, colorido , com mais detalhes, aqui. Pois eu vi esse filme impressionante em 1975. Vinte e cinco anos mais tarde, podemos todos vê-lo na Internet. Eu acho isso o máximo. Mas ainda é pouco diante do que nossos netos verão com o mapeamento do genoma humano.

Eu não estarei mais por aqui para me transformar na ruiva alta e peituda de lábios carnudos e olhos verdes que sempre fui em essência mas cujo download a natureza abortou ao meio. Mas é lindo estar viva para acompanhar toda essa evolução.

O tema física não acaba aqui, mas o capítulo sim. Por alguma razão, preciso muito agora, contar por que abandonei essa carreira tão maravilhosa para entrar para o mundo da comunicação. Por enquanto, um breve adeus a Einstein, Schröedinger, Heisenberg e um olá para Marshall McLuhan.