O papel dos homens nessa coisa toda

Não sei como foi sua relação com seu pai na infância, mas fui criada numa época onde as mães ficavam em casa cuidando da casa e dos filhos e os pais saíam pra trabalhar. Na década em que fui criança, nos longínquos anos 60, meu pai era mais um conceito do que uma presença. Para complementar seu soldo da aeronáutica, trabalhava à noite como técnico consertando os aparelhos de TV em preto e branco na casa das pessoas. Mas sua figura estava sempre presente, nas frases da minha mãe como ‘espera só até seu pai chegar’ e ‘quando eu contar pro seu pai você vai ver’ ou ‘pede pro seu pai’. Sempre adorei me pai, mas eu o via muito pouco. Na minha geração pais nunca estavam presentes.

Além dos pais ausentes por causa do trabalho, há um contingente gigante no Brasil de crianças que foram criadas sem pai totalmente, ou porque abandonaram a família, porque montaram família com outra mulher ou simplesmente porque engravidaram mulheres e sumiram.  Pais desconhecidos, sumidos, foragidos. Ou presos. Ou mortos.

O crime no Brasil, mata muitos mais homens do que mulheres.

Assim, contabilizando os pais ausentes por diferentes motivos, de prisão à CLT, de sumiço a falecimento, a maioria dos brasileiros foi criado muito mais com mãe ou com avó do que com pai. Pai presente, participante, é privilégio de poucos e coisa bem recente na nossa história. E aí entra minha teoria: o Brasil tem ‘daddy issues’.

Mesmo sem títulos ou cacife pra bancar essa teoria com embasamento psicanalítico, arrisco dizer que esses ‘daddy issues’ que (quase) todos temos pode explicar essa atração que o eleitor tem por ‘figuras de pai austero’, de Salvador da Pátria, o macho alfa que vai tomar as rédeas da nação e botar todos os malfeitores de castigo e botar ordem nessa grande família.

E é aí que a gente se dana.

Porque parte dessa busca por preencher o vazio da figura paterna, acaba nos levando a grandes equívocos.

Porque, sinceramente, se é pra ter uma simulacro paterno cruel, punitivo, insensível, truculento, homofóbico, misógino, intolerante é melhor ficar sem, no público e no privado.