👉 Dia do conserto

Sábado passado precisei ir até o litoral. Fui com meu marido bem cedo, achando que não ía ter ninguém na estrada, já que era um final de semana que se seguia a um feriado prolongado, depois de seis meses de confinamento, que gerou aglomerações nas praias equivalentes a Carnaval e Ano Novo do antigo mundo pré-covid19.

Ledo engano.

O trajeto que costuma ser feito em duas horas e meia levou mais de quatro horas. Quatro horas para ir do centro da cidade de São Paulo ao litoral norte do Estado, dava pra ir pro Chile de avião e ainda usar o resto do tempo pra comer um pão de queijo no aeroporto, daqueles que custa um rim.

Chegamos, guardei as coisas, arrumei a casa e esperei a segunda leva da família chegar. Nem vou falar sobre o primeiro choque, quando fui até a praia para ver a situação e encontrei um planeta recém colonizado com negacionistas da pandemia e adeptos do fodassionismo. Não reconheci a praia que frequento há 27 anos, não reconheci a raça humana à qual pertenço. Voltei pra casa, fiz o lanche, jantamos, vimos alguma coisa na TV e fomos dormir. Na manhã seguinte, arrumei as coisas sem muito cuidado e disse aos que ficaram:

-Se eu esquecer qualquer coisa vocês levam!

E voltei para São Paulo. E aí começou o problema.

Eu realmente esqueci alguma coisa, a minha mochila, com todos os cabos, carregadores, fones de ouvido, material de corrida, relógio e todas as coisas que eu precisaria na segunda feira de manhã. Mas eu só me dei conta disso depois que a família toda já tinha subido pra São Paulo, em duas levas.

Entrei naquela série ‘Socorro, estou em pânico’. O primeiro episódio foi ‘Mas como eu fui esquecer a mochila?’. Resposta: porque nunca mais fui a mesma pessoa depois de ter Covid. Porque fico 70% do tempo com o ~cérebro boiando~, como se estivesse chapada. Porque por saber que minhas filhas sairiam mais tarde e fechariam a casa, não me preocupei em fazer a última ronda de coleta de coisas. Porque eu tinha um monte de coisas para carregar e, principalmente, porque eu falei ‘se eu esquecer alguma coisa vocês levam’.

E assim, como gancho para o segundo episódio, perguntei para as duas:

-Mas vocês VIRAM a mochila na cozinha?

E elas:

-Vimos, sim.

-E vocês não pensaram em TRAZER a mochila ou me perguntar por whats app o que era aquela mochila, de quem era aquela mochila? Recebi uns 4 whatsapp de vocês perguntando sobre um tupperware e nada sobre uma MOCHILA na cozinha?

Elas:

– A gente achou que a mochila ERA DA CASA.

Aí comecei a enlouquecer. Mais do que mochilas, esquecimentos, eu tenho esse problema com a LÓGICA, ou melhor, com a dificuldade de aceitar a falta da mesma.

Como assim ‘achei que a mochila era DA CASA?’ Sua casa tem mochila? A casa da sua mãe tem mochila? Que pensamento é esse, que conceito é esse ‘a mochila da casa’? Sim, porque, como bem SABEMOS, TODA CASA TEM SUA PROPRIA MOCHILA, PORTANTO, aquela só podia ser ‘a mochila daquela casa’.

Superei essa dor quando milha filha respondeu:

-Agora você quer culpar a gente pela mochila que você esqueceu.

Certíssima. Fui eu e meus restos de coronavírus que esquecemos. Elas poderiam ter visto AND trazido a mochila, mas, né, elas acharam que era da casa. Vai que elas subam pra São Paulo com a mochila da casa e a casa ficasse chateada com elas.

O próximo passo era fazer a mochila chegar a São Paulo, com correio em greve, sem serviço de nenhum tipo no pequeno vilarejo de Barra do Una em São Sebastião. E articular tudo isso num domingo à noite.

Foi aí que minha filha me deu a informação salvadora:

-Mãe, o filho da vizinha disse que os pais viriam para São Paulo amanhã, segunda-feira. Se você conseguir falar com ele, quem sabe ele possa trazer a mochila pra São Paulo, ai vocês acham um jeito de se encontrar.

Bingo. Perfeito. Faltava só saber quem era esse vizinho e como falar com ele.

A casa na praia fica num pequeno condomínio, são poucas casas, a cidadezinha é minúscula. O porteiro, que é novo e quase nunca está na portaria, não respondeu minhas mensagens e o plano A não rolou. Entrei em contato com a antiga faxineira que trabalhava no condomínio e expliquei o problema. Ela mora longe, disse que não teria como ir lá naquela momento. Plano B, descartado. Falei com a filha da faxineira, meu plano C, que começou a funcionar. Ela disse que conhece a familia do vizinho, que trabalha para eles de vez em quando. E, gentilmente, ela se prontificou a ir até o condomínio na manhã seguinte, falar com o porteiro, pegar a cópia da chave da minha casa, entrar na casa, pegar o mochila, entregar para o vizinho e passar meu contato para ele e o dele para mim.

Que anjo da guarda!!! Fiquei muito feliz com essa ajuda. Estava tudo certo. Era só esperar amanhecer. Assim, agradeci demais e passei as instruções:

-A Mochila é preta, estampada de Mickey Mouses coloridos e está na bancada da cozinha. Tem todos os cabos, carregadores dentro, um monte de coisas de corrida. Não tem como errar.

Foi aí que eu errei. Porque SEMPRE tem como dar errado, como afirma a Lei de Murphy.

Na segunda-feira à tarde, recebi uma mensagem por whats app dizendo:

-Tudo certo, mochila entregue!

Suspirei aliviada. A garota, que vou chamar de Sonia, me tranquilizou e passou, junto com essa mensagem, o contato do vizinho, a quem vou me referir como Pedro.

Falei com Pedro por whatsapp, ele me passou seu endereço e disse que chegaria tarde da noite. Combinei de ir na 3a. feira, na manhã seguinte, pegar a mochila na casa dele.

A casa dele fica a 45 minutos de carro da minha casa. Ida e volta, uma hora e meia de Uber. Mas, tudo bem, nem faria sentido reclamar da despesa, já que não tenho carro para buscar. Anotei o endereço e fui cuidar da vida e do trabalho. Aproveitei para marcar um horário numa assistência técnica da Apple para consertar um fone de ouvido da Beats, que parou de funcionar de um lado.

No final da tarde, pouco antes de viajar, Pedro me mandou uma mensagem.

-Estou saindo daqui a pouco. Queria só confirmar se está tudo certo. É isso mesmo que é para eu trazer?

E ele postou a foto de uma ALMOFADA.
Uma ALMOFADA da Foam, dessas que a gente usa para colocar embaixo do notebook.

Almofada e-foam

Sim, é preta e tem até uma alcinha de mão. Mas não é uma MOCHILA. Não tem MICKEY MOUSE colorido. Não tem alça para pendurar e não ABRE como uma mochila. Porque é uma ALMOFADA.

Respondi que não, não era a minha mochila de Mickey. E pedi que ele me ajudasse, entrando em contato com o porteiro, pegando a chave da casa com ele e indo até a cozinha pegar a mochila. Pedro fez tudo isso e mandou a foto da mochila certa:

Mochila de Mickey Mouse

Fiquei muito feliz que estava tudo, novamente, sob controle. E perguntei pra Sonia o que tinha acontecido para ela pegar a almofada e entregar pra Pedro.

E então ela disse que não tinha ido no condominio, nem tinha pegado ou entregue a mochila. Ela terceirizou a coisa. Mandou mensagem para o porteiro e pediu para que ele fizesse isso. E ai ele entrego a almofada.

Agradeci a Pedro por ter me salvado, usando a lógica e o raciocínio e Pedro me disse que foi a mulher dele que detectou o erro. Ela disse que aquilo não era uma mochila, que achou estranho eu mobilizar as pessoas para trazer uma almofada para São Paulo e que algo estava errado, porque não tem como colocar nada dentro!

Ontem, 3a feira, acordei, peguei um Uber, fui até a portaria da casa deles e peguei a mochila. De lá peguei o segundo Uber e fui para a assistência técnica da Apple. Esperei 45 minutos e, ao ser atendida, recebi a proposta mais absurda do mundo:

-Assim, a gente não conserta e esse seu fone saiu de linha. Mas se a senhora entregar o fone pra gente e pagar uma “diferença”, nos entregamos outro fone igual pra senhora.

-E de quanto é essa diferença que eu teria que pagar?
-Mil reais.

?!?!?!?#?$?#?%?%?$%?% MIL REAIS??

Peguei meu fone, minha mochila, o terceiro Uber, voltei pra casa, almocei e fui a pé até a Santa Ifigenia. Meia hora depois, entreguei o fone para um cara que consertou em 45 minutos e cobrou 18 reais.

Voltei para casa com meu fone funcionando, meu dinheiro economizado, minha mochila de Mickey me esperando. Tudo certo. Tomei um longo banho, corri atrás do prejuizo de tempo, fiz minhas coisas de trabalho.

No final da tarde mandei entregar trufas para Pedro e um buquê de flores do campo para a mulher dele. À noite, os dois mandaram áudio agradecendo, emocionados, com foto dos ‘mimos’. Fiquei emocionada também. A gente sempre tem como consertar as coisas. Demora, dá trabalho, precisa mobilizar pessoas, precisa contar com ajuda e boa vontade, precisa consertar os erros, precisa insistir e ter paciência pra dar tudo certo.

Da próxima vez, vou fazer como sempre fiz, dar uma “geral” na casa para não esquecer nada.

Maldito corona!



👉Olá, querido leitor

Cris Dias disse que os blogs estão voltando.

Li isso agora. Curiosamente, horas antes, fiz uma mini-bio para mandar para um contratante e coloquei ‘blogueira há 20 anos’. Sim, esse blog, que já foi do UOL, do blogger, da AOL, do r7 e do wordpress, vai completar VINTE ANOS EM DEZEMBRO.

Só isso já é motivo pra mantê-lo vivo.