Entrevista com Anderson Antunes, o jornalista que fala da web brasileira na Forbes americana

 

South American Way é o nome do blog do jornalista brasileiro e cidadão internacional Anderson Antunes. Seus posts falam de Internet, política e assuntos que envolvem ricos e famosos, especialmente da America Latina. Esta semana seu texto sobre o sucesso instantâneo de Gina Indelicada no Facebook, com depoimentos de seu criador Ricck Lopes, rendeu vinte mil visitas e incontáveis tweets, comentários, likes e shares no Facebook. Ver o Brasil na Forbes, em inglês, com destaque para pessoas com as quais convivemos nas redes de igual para igual parece mexer com a cabeça dos brasileiros

 

Anderson respondeu às perguntas de uma breve entrevista exclusiva para o Querido Leitor. Espero que você goste. Com você, o jornalista que odeia rotina e ama pianistas, Anderson Antunes, ou @andersonthinks

 

 

QL:>A marca Forbes é mundialmente respeitada, um sobrenome poderoso para todo jornalista. Como é sua relação de trabalho assinando um blog no site da Forbes? Você tem total liberdade como colunista, faz suas próprias pautas? Existe um compromisso de posts por mês?

Anderson Antunes:> Minha relação com a Forbes começou em 2005, quando comecei a fazer parte da equipe que elabora a lista das celebridades mais poderosas do mundo. Em seguida, comecei a contribuir também com os responsáveis por outras listas, como a dos bilionários, levantando informações sobre os ricos do Brasil. No ano passado, a Forbes decidiu dar mais atenção aos BRICs, e então fui convidado para escrever um blog sobre o Brasil e região. Tenho total liberdade pra falar sobre o que quero, na maioria das vezes sou eu quem escolho as pautas, mas os assuntos precisam ser financeiramente relevantes, já que a Forbes é uma revista de economia e negócios. Por contrato, eu preciso escrever no mínimo cinco posts por mês, mas estou tentando ser mais ativo no blog. Além da internet, escrevo para a edição impressa da Forbes dos Estados Unidos e de outros países (inclusive da recém-inaugurada Forbes Brasil), por isso viajo bastante e nem sempre sobra tempo.

 


QL:>Seus textos cobrem pessoas e acontecimentos que se destacam na América Latina, especialmente no Brasil. Além de figuras famosas da política, esporte, moda, você também está sempre ligado nos acontecimentos das redes sociais. Essas histórias de sucesso de pessoas comuns que criam memes, virais e ganham destaque na Internet brasileira é uma novidade num mundo de ricos e famosos consagrados?

Anderson Antunes:>Eu não diria que é uma novidade, mas é algo característico da internet brasileira. Nos EUA isso acontece também, mas aqui o mercado de mídia é tão grande que as pessoas por trás desses memes acabam não se destacando como acontece no Brasil. Os brasileiros são muito ativos nas redes sociais, sobretudo no Facebook e no Twitter, onde geralmente há assuntos relacionados ao Brasil nos TTs. Isso chama atenção dos estrangeiros, sobretudo agora que existe um olhar mais atento sobre tudo que acontece no Brasil.

 

 

QL:>Como os americanos vêem os assuntos ligados ao Brasil? Existe interesse dos americanos ou os leitores são primordialmente brasileiros?

Anderson Antunes:>O blog é visitado por gente do mundo inteiro, na maioria americanos e europeus. Mas os brasileiros são presença constante, também. O leitor americano da Forbes se interessa mais sobre assuntos ligados aos bilionários, sobre as grandes empresas do Brasil. E histórias de sucesso. Hoje eles prestam mais atenção no Brasil, que está mais presente no noticiário internacional. E estão mais bem informados do que no passado. Já os brasileiros, de uma maneira geral, gostam de ser notícia no exterior, desde que seja por algo bom. Caso contrário, eles ficam bastante irritados, principalmente quando descobrem que o autor do eventual texto que eles não gostaram é brasileiro.

 

 

QL:>Você é brasileiro e conhece bem nosso jeito de ser, inclusive nossos defeitos capitais, como a inveja. Muita gente, ao ver um garoto como Riccky Lopes na “Forbes” fica revoltadíssima, alegando que uma publicação tão conceituada está abrindo espaço para um ‘meme do Facebook’. O que você acha dessa reação? É uma subvalorização do meme ou uma supervalorização do post? 🙂


Anderson Antunes:>Acho que além de inveja isso traz à tona outra característica dos brasileiros, que é uma certa dificuldade de “abraçar o popular,” digamos assim. Muita gente tem vergonha de dizer que gosta de um cantor que faz sucesso com uma música que foi feita apenas pra entreter, como o Michel Teló. E há aqueles que de fato não gostam desse tipo de música, mas não conseguem apenas ignorar o artista. Eles precisam explicar porque não gostam, sem se dar conta de que acabam colocando a pessoa ainda mais sob os holofotes, uma espécie de Streisand effect. Além disso, há quem não entenda que um blog permite uma abordagem menos sisuda, mais soft e sobre assuntos cotidianos que não deixam de ser relevantes.

Sobre o Riccky, o que eu achei interessante foi que muita gente no Brasil aparentemente ficou ofendidíssima ao vê-lo na Forbes, inclusive li dois textos no Facebook mais ou menos com o mesmo take, listando todos os motivos pelos quais ele não deveria ter sido notícia, mas deixando de lado o fato de que em 12 dias ele atraiu a atenção de milhões de internautas, de grande parte da mídia de massa e recebeu várias propostas de emprego que poderão lhe render uma carreira. Muita gente já teve sucesso na internet brasileira, mas não da maneira como o Riccky teve, no exato momento em que todo mundo se pergunta como usar o Facebook pra ganhar dinheiro. Dito isso, a maioria dos estrangeiros acharam a história dele e da Gina Indelicada fascinante.

 

 

QL:>Pela sua experiência em diferentes línguas, lugares assuntos, qual você diria que é a explicação para essa busca pela fama que move o brasileiro, talvez mais do que a busca pelo sucesso financeiro?

Anderson Antunes:>Acho que as pessoas que buscam a fama por si só, no Brasil e no resto do mundo, são bastante parecidas. E também acho que isso tem muito a ver com a busca pelo status social, mais ou menos como se fosse uma forma de evolução. Não existe muita diferença entre o empresário que quer ser como o Steve Jobs ou uma dançarina que quer fazer fama como reality-star. O objetivo é o mesmo–ser admirado, até invejado, e se destacar entre os pares. Pra essas pessoas a fama é como um espelho de Erised, ela reflete aquilo que elas consideram o ideal. O problema é quando a busca pela fama não é acompanhada de talento, nem que seja o de aparecer, daí o resultado nunca é bom.

 

 

QL:> Você recebe emails ou mensagens de haters? Se sim, como lida com eles?

Anderson Antunes: >Os haters. Eu acho que se é ruim com eles, seria pior sem eles. O meu único problema com os haters é que eles, na grande maioria das vezes, possuem argumentos fracos, e frequentemente tortos. Um exemplo: quando escrevi sobre o Teló, recebi muitas mensagens com críticas severas por não ter dado espaço a outros artistas, gente que, para alguns, caberia a mim “divulgar.” Acontece que o Teló emplacou uma música nas paradas de sucesso de mais de 20 países, algo raríssimo para um artista brasileiro, e ganhou muito dinheiro com isso (US$ 18 milhões em 12 meses, segundo nossas estimativas). Ora, a Forbes é uma revista de finanças, e eu não sou crítico musical. O que me chamou atenção foram esses feitos que ele conseguiu. E não cabe a mim divulgar ninguém, eu apenas relato fatos. Os haters não entendem isso, mas eu acho que o problema deles não é comigo, é com eles mesmos. Eu geralmente não respondo comentários de haters, quando é o caso eu os bloqueio. Mas é preciso paciência pra lidar com eles.

 

 

QL:> A Internet vai mudar o modelo de poder do mundo?

Anderson Antunes:>Eu acho que a internet já mudou. O Brasil é um grande exemplo disso. Não é coincidência o fato de o Brasil estar “bombando” internacionalmente neste momento, quando a internet conecta cada vez mais as pessoas. Graças a ela, as pessoas estão mais bem informadas, e se interessam mais por assuntos que fogem da sua rotina. Outro fator que a internet proporciona é dar voz às pessoas, o que, por sinal, o Riccky diz ter sido uma das sacadas que ele teve pra criar a Gina Indelicada. A revolução no Egito, o diário da Yoani Sánchez, o Obama na presidência, a estudante de Santa Catarina que criou uma página no Facebook pra reclamar das escolas… Imagina quando a internet for liberada na China? Tudo isso acontece e aconteceu porque a internet permitiu. Ela distribui o poder.

 

 


QL:> Para encerrar, o que o brasileiro tem que ninguém mais no mundo tem?

Anderson Antunes:>Os brasileiros têm o Brasil! A imagem do Brasil é forte, a fama dos brasileiros é boa e o momento do país é o melhor, talvez em toda a sua história. As oportunidades para os brasileiros hoje estão tanto no Brasil quanto fora, em todas as áreas. Quem souber usufruir disso tudo da maneira correta vai longe. E eu terei o maior prazer de escrever sobre estas pessoas.

 


Meu muito obrigada ao Anderson pela gentileza da entrevista.
🙂

Leia os posts de Anderson Antunes na Forbes aqui.

 

 

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Isso também é um meme, do mundo físico

http://www.flickr.com/apps/slideshow/show.swf?v=109615

Uma pessoa teve a ideia. Ou viu essa ideia materializada: um vaso de planta colocado numa árvore. E copia. E a ideia se replica. E se replica. Até que muita gente na mesma rua, no bairro, na cidade, em outros lugares, copie e copie sem parar. Em São Paulo muitos zeladores de prédio fazem isso. É um lindo meme.

Uma vez eu vi, numa praia do Mar do Norte, na Bélgica, umas escovas em bancos, com as quais as pessoas tiravam a areia na hora de ir embora. Copiei a ideia. Tenho uma escova na sacola de praia. Sempre escovo os pés, as pernas, antes de calçar as havaianas na hora de voltar. É um meme. Ele se reproduz através da gente.

Veja o que Susan Blackmore fala sobre memes. Tem legenda em português. É muito bacana.
Do TED.

Que outro meme real, físico, você conhece?

Memes. O nome é novo, mas o fenômeno é antigo. Por exemplo:

O termo “meme” está se popularizando aqui no Brasil, assim como o estudo da “memética”. Outro dia falei disso aqui no blog. Se você quiser ler/reler o link está aqui. Eu acho bacana quando uma palavra nova, um conceito novo sai do mundo acadêmico e se torna conhecido de todos. O meme, no caso, faz parte da cultura atual.

Muitas vezes, quando uma expressão que a gente não conhece começa a ser divulgada, nossa primeira reação é de negação. Nem todo mundo aceita o novo ou dá boas-vindas ao desconhecido. Há quem se sinta um pouco desconfortável ao lidar com algo que desconhece. Digo isso porque já senti essa reação (e até já contei sobre essa bobagem da minha parte, o caso “Arena conta Zumbi”). Ficar “de fora” gera uma sensação ruim. E quando uma sensação ruim se apossa da gente nossa atitude instintiva é empurrar pra lá dizendo: não. Vou tentar não transformar a ideia de meme, ou esse post, em algo que incomode.  Espere só um minutinho que eu vou buscar uma almofada, assim a gente fica mais confortável.

 

 

(já volto)

 
Pronto, fui e voltei.

Os memes podem ter muitas formas, porque eles não são “coisas”, mas coisas com atitude. Um meme é um vírus com atitude, uma informação com atitude, com intenção de ser replicada. E como ela se replica? Pelas pessoas. Um meme pode ser uma piada que todo mundo conta, uma moda que “pega”, um pedacinho de música que cola como chiclete de ouvido. Mas pode ser também um gif animado que todo mundo repassa por email, como acontecia no começo da Internet.

Lembra daqueles totens da sorte, maldições e correntes? Também eram memes.

Pequenos fragmentos de vídeo são memes, como o Play Him Off, Keyboard Cat, que eu adoro. Vou traduzir/resumir:

 

PLAY HIM OFF KEYBOARD CAT

– Em 1984 o artista performático Charlie Schmidt vestiu seu gato Fatso com uma camisa de seu filho Cody, colocou o gatinho em frente a um teclado, manipulou suas patinhas para fingir que o gato estava tocando e gravou em VHS, o gatinho tocando a musiquinha ( que COLA muito no cérebro).

Treze anos mais tarde, no dia 7 de Junho de 2007, Charlie subiu o vídeo no seu canal do YouTube com o nome de “Cool Cat”. O vídeo ficou lá, paradinho, por mais dois anos.

QUINZE anos depois da gravação, em fevereiro de 2009, Brad O’Farrell, blogueiro e usuário do YouTube subiu um vídeo de um cadeirante caindo de uma escada rolante com o gato de Schmidt chamado “Play him off, Keyboard Cat.” (Eu assisti e fiquei meio chocada. A gente sente compaixão pelo homem que cai da escada rolante com a cadeira de rodas) . Isso mesmo, o cara fez essa ‘maldade’, botou o cara caindo e, em seguida, o gatinho tocando. Mas a ideia continha algo interessante que, segundo o Know Your Meme renovava o conceito do  Vaudeville, o de punir uma performance ruim tirando o artista do palco com um “gancho”, como aqueles cajados dos pastores. A gente vê muito nos desenhos animados. Isso acontecia de verdade no Vaudeville, teatro de revista (é isso?). Então, Keyboard Cat was the new Gancho.

A partir daí o meme se espalhou. Várias pessoas subiram vídeos usando o mesmo gatinho tocando teclado quando algo dava errado (#fail).  Em abril de 2009 Schmidt criou o PlayHimOffKeyboardCat.com, um blog que hospedava vídeos e imagens do gato. Em 10 de abril de 2009 Keyboard Cat apareceu no Buzzfeed e Urlesque, primeiro site a dizer que o vídeo era um MEME.

No dia 6 de maio de 2009 a CNN mostrou o vídeo. E no dia 9 Ashton Kutcher, já muito seguido no Twitter, cerca de 1 milhão de followers,  disse que era seu vídeo favorito. Pronto. O meme viralizou.

 


Veja o pico da divulgação do Keyboard Cat.

Ah, sim, o vídeo ORIGINAL do KeyBoardCat tem 21 milhões de views. Veja.

Canais como o 4chan, 9gag e fóruns são OS GRANDES RESPONSÁVEIS pela criação e disseminação dos memes. Todos os troll faces, os LOLs, os gatos, tudo.

Mas… e aqui no Brasil?
Bom, isso eu conto já.

Aqui no Brasil também adoramos memes. E já usamos muitos na televisão. Há muito tempo. O teatro de revista também sempre nos deu memes em forma de bordões. Como as novelas. Quem nunca repetiu um bordão da Praça da Alegria? (gosto de saber tudo nos seus míiiiinimos detalhes!) Da Praça é Nossa? Do Zorra Total (Ai como eu tô bandida)? Dos Trapalhões? Todo mundo. Todo mundo mesmo. Ainda mais se você pensar nos memes das canções, como Ai se eu te pego, ai, ai.

Mas há memes de imagens também. O Pânico usa muito. Como o coice do cavalo quando alguém diz uma burrice (exatamente o Keyboard Cat pra Fail), o cri cri cri…. quando alguém não sabe a resposta (em áudio), o …ronaldo! do Zina (lembra?). Todos eles da cabeça genial e doentia do André Machado, o @andreeditor.

O Pânico também lançou memes MUITO poderosos de GESTOS, como o temido “pedala” e as dancinhas, como a “Dança do Siri”. Memes de gestos são copiados por todas as pessoas, de velhos a crianças. É irresistível, porque somos humanos e programados para copiar. Mimetizar. Fazer Mímica. Como macaquitos que somos. Né, Darwin?

E na nossa linguagem? Bom, nós ADORAMOS memes com nomes de gente.

.Senta lá, Cláudia
.Pode, Arnaldo?
.Como assim, Bial?
.Menos Luiza, que está no Canadá.

E aí eu lembrei: sabe a palavra BADERNA? Baderna foi incorporada ao vocabulário por causa de um NOME, uma bailarina italiana, Maria Baderna, que veio para o Rio de Janeiro em 1848. Leia aqui que legal, o texto é SENSACIONAL. Reproduzo aqui. Porque BADERNA provavelmente foi um MEME de meados do século DEZENOVE aqui do Brasil.

“De onde veio a palavra baderna? Responde Homero Fonseca: de uma bailarina muito vivaz que emigrou do Piemonte e de Milão (Itália) para o Rio, em meados do século dezenove, tendo aprontado muitas na capital do Império e no Recife. Deixou, no vocabulário da imprensa, mas talvez sobretudo da polícia, uma marca indelével. Confiram. (Paulo Barbosa)
A baderna e o dicionário, Homero Fonseca (*)

Está no Houaiss: “baderna – situação em que reina a desordem; confusão, bagunça”. O dicionário localiza a origem da palavra no antropônimo Marietta Baderna, dançarina italiana que esteve no Rio em 1851, “causando certo frisson”. Durante a ditadura militar, essa palavrinha foi estigmatizada, com seu derivado “baderneiro” servindo para qualificar oposicionistas, líderes estudantis e militantes sindicais.
Otto Lara Resende perguntara, pelo Globo, em 1987, o que diabos a moça teria feito para figurar nos dicionários com tal acepção. Moacir Werneck de Castro respondera, dias depois, pelo Jornal do Brasil, inventando uma biografia mirabolante da dançarina italiana. O escritor Silvério Corvisieri, seu compatriota, resolveu pesquisar a sério, publicando Maria Baderna – A Bailarina de Dois Mundos, livro do qual emerge uma personagem fascinante e um exemplo do que o tempo e as circunstâncias fazem com uma palavra.”

Bacana, né?
Eu estou me dedicando a estudar memes.
Vamos estudar juntos?