Rede de Lendas – 001 – A @rroba que copiava

Era uma vez um garoto que nasceu  2 minutos e 20 segundos depois de seu irmão gêmeo mais velho, recebido com honras de primogênito da família. Chegou ao mundo assim, como cópia atrasada, meme com validade vencida. Para complicar ainda mais, como o irmão nasceu segundos antes da meia noite, tecnicamente seu aniversário era no dia seguinte.

Toda vez que chegava o dia de soprar velinhas aparecia aquele tio chato pra dizer que o aniversário do moleque era “só amanhã”.

Em dias que estava otimista, encarava com naturalidade o seu eterno segundo lugar. Quando a depressão chegava, sentia-se o último.

Um dia resolveu criar uma conta no Twitter. Ao dar uma busca, descobriu que seu irmão já tinha arroba e avatar com foto e teve uma ideia, comunicada a si mesmo em voz alta:

– Só de raiva vou fazer um twitter todo cagado, todo copiado. Vou copiar tudo e todos. Frases, pensamentos, fotos, links. Vou traduzir de outras línguas pelo Google translator e colar. Vou ser o melhor segundo, o mais famoso outro, o copiador implacável, a segunda via insubstituível.

Depois desse longo monólogo começou sua vingança contra o destino.

Estudou o mercado e viu que as piadas mais velhas e estúpidas faziam muito sucesso. E começou a reproduzí-las em sua timeline. Com dois cliques descobriu que milhares acreditam em horóscopo, mesmo quando os textos eram imprecisos e repetidos. Googlou por textos astrológicos antigos e começou a reproduzí-los como se fossem inéditos. Seus seguidores começaram a crescer rapidamente.

Às piadas velhas e previsões inventadas, somou links fofos para agradar garotas, disparando a curva de adesões.

Passou a copiar tudo, de todo lugar, com requintes linguísticos. Gifs poloneses, vídeos romenos, piadas croatas. E, claro, muitas frases edificantes, mezzo remixadas, mezzo roubadas, com assinaturas de autores de destaque para dar mais credibilidade.

Em algumas semanas começou a despontar nos rankings de influência, klout, seguidores e retweetadas. Recebeu convites para ações e palestras. Ganhou brindes e presentes e, pela primeira vez sentiu-se superior ao irmão. O melhor, o primeiro.

Deslumbrado, começou a ousar na copiagem. Parou com as pesquisas e pegava coisa mais próximas. Uma frase de um livro, uma imagem de um site, um tweet qualquer. Foi se deixando levar pelo sucesso e afrouxando os cuidados. Até que foi pego em flagrante, depois de roubar o verso de um famoso poeta. Foi flagrado, exposto e desmascarado.

Bastou o dono do verso delatá-lo para que todos começassem a reivindicar a autoria de todos os tweets do perfil.

– Aquele texto é meu!

– E aquela imagem!

– Roubou meu post!

– Pega ladrão!

E assim, desmoralizado em rede de forma pública, perdeu os contratos, os mimos, a moral e fechou seu perfil para sempre. Ou, pelo menos, até o dia seguinte.

 

 

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