Sonhar e contar

Uma vez eu comprei o livro “A interpretação dos sonhos” do Freud num sebo. Nunca li. Agora tem a versão online gratuita também. Também não li. Já li algumas coisas Jung sobre sonhos.  Só  sei que o sonho tem uma função importante no equilibrio mental. Sonhar faz bem para a mente humana assim como o scandisk é bom para o computador.

O sonho que você sonha, portanto, é bom para você. E pra mais ninguém. Você pode contar o que sonhou para seu terapeuta e ele faz uma interpretação dessa linguagem simbólica. Porque o que você sonha à noite não é informação real, não diz respeito ao mundo. É uma produção sua,  que vem de todas as suas experiências, medos, anseios e sei lá mais o quê. Só sei que o sonho não é real, não é factual, não é conhecimento,  mas uma função do seu corpo/mente. O sonho de cada um é tão pessoal quanto seu…xixi, por exemplo. Só que em vez de ser um produto material ele é mental.

Seu xixi pode ser muito importante para você cuidar da sua saúde, mas é uma relação de você com você mesmo.  Ninguém sai por aí contando o resultado do laboratório de análises clínicas.

É por isso que eu acho que ~contar o sonho~ publicamente não tem função. A não ser chamar atenção e buscar outras pessoas que gostem de falar sobre o que sonharam.

Eu não entendo por que, pra que, uma pessoa conta no Twitter, no Facebook, no blog, pelo celular, pra outras pessoas o que ela sonhou. Não consigo pensar em nada que me interesse menos do que isso.

E tem gente que adora ficar contando o que sonhou.

E, claro, quem conta já está ofendido a essa altura e já está atirando pedras, porque é raro uma pessoa que se ofenda e não revide. O argumento é sempre ~e você que tweeta o que você comeu? o que isso me interessa?~

Olha, o que a pessoa comeu é real. E interessa, sim. Comer num bom restaurante pode ser uma recomendação, comer um produto ruim pode ser um alerta pros outros. Mas o que você pode FAZER com o sonho que o outro conta? Que utilidade um sonho alheio pode ter pra você? Um alerta? “Ah, se você teve um pesadelo com esse tema, vou EVITAR sonhar com isso”. Ou a pessoa diz ‘sonhei com você’. E o que você responde? Obrigada? A pessoa não sonhou intencionalmente para você agradecer. Você diz… ‘ah que legal’. Legal por que? Qual a vantagem de ser ~sonhada~ ?

Enfim, o que eu quero dizer (e estou sendo propositalmente enfática) é que contar sonho é a coisa mais inócua do mundo, na minha opinião.

Você pode me contar um desejo, uma ideia, uma coisa que você pensou conscientemente, uma opinião, vou adorar. Você pode me contar a coisa mais louca e idiota que você pensou enquanto estava acordada. Vou achar graça. Mas contar um sonho?

Mas isso sou eu. TEm gente que gosta de contar E de ouvir sonho alheio.

Não sei como ainda não tem uma coluna no EGO chamado ‘sonhos dos famosos’. O jornalista ligaria para celebridades perguntando o que eles sonharam na noite anterior e publicariam as sinopses dos sonhos.

E, claro, estou aberta a críticas. Se você me convencer que contar o sonho tem importância social posso rever minha posição.

Sim, eu sei que tem tooooooooooda uma parte da história ligada à função ‘divinatória’ dos sonhos. Sonhos premonitórios, deuses que falam com as pessoas através dos sonhos. Mas tudo isso é conjectura, ou dogma, ou crença pessoal. Não tem nada que prove que realmente alguém está falando com a gente enquanto dormimos. É a nossa mente que está processando tudo e produzindo sonhos.

O que eu não entendo é gente carente que pega o celular e gasta uma fortuna de crédito e começa a conversa assim:

– Fulana? Nossa, você NEM IMAGINA o que eu sonhei ontem! Vou te contar…

E fica meia hora contando o que ela SONHOU.

Eu ouviria o sonho de pessoas muito próximas a mim, minha família, amigos muito pessoais. E só. Pelo simbolismo ou para dar atenção, compartilhar sentimentos, aplacar medos.

Mas interesse pelo que as pessoas sonharam?
Não tenho. Nâo consigo entender.
Nem em sonho.

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