Twistorias – “Ser rico” – 91/140

E depois de um ano…retomei o projeto das 140 twistórias, feitas a partir de tweets públicos. /

Para ver as outras 90 -> clique aqui – youtube.com/twistorias

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Ter olhos para ver os outros e a última bonequinha Babushka

Estou exausta. Não sei como consegui levantar da cama depois de mais uma noite sem dormir e chegar cedo no Hoje em Dia pelo segundo dia consecutivo. Acabei nem entrando no ar, nem ontem e nem hoje.

Quando me arrumei para vir para o trabalho fiz uma imagem mental, metafórica: eu estava tirando uma outra mulher de dentro de mim, como se fosse uma boneca russa. Ao final de uma semana exaustiva estou na última bonequinha, aquela que já não tem mais nenhuma dentro de si mesma. Hoje sou a última babushka.

A nanobonequinha veio para o trabalho. Em russo o nome correto é matrioshka, mas também chamam de babushka. Babushka, além de ser o nome de uma antiga canção da Kate Bush (com oo no lugar  do u) é também ‘avó’ em russo. Acho que é isso mesmo, temos muitas pessoas dentro de nós nossos ancestrais todos, que às vezes nos levam adiante.

O cansaço, as noites sem dormir, as muitas palestras e debates, os programas ao vivo, a tosse, a gripe, o ar seco, os fogos na noite da Libertadores, o cachorro assustado, os tweets agressivos e os comentários de haters acabaram minando um pouco a minha saúde. Estou fragilizada, chorando por qualquer coisa. Mas ainda tenho olhos para ver. Ainda sou capaz de exercer o que de mais humano há em mim: enxergar os outros.

Quando eu estava na cadeira de maquiagem esta manhã, Fábio Arruda me deu um chocolate de presente.

Olhei o chocolate, agradeci e comentei com ele:

– Do Canadá? Que lindo! Eu adoro o Canadá. Eu morei lá. Minha irmã mora lá.

E Fábio Arruda me contou que estava chegando do aeroporto, vindo do Canadá. Começamos uma conversa bacana e ele me contou sobre a viagem.

Sabe, aquele chocolate não era apenas um doce, mas o começo de um diálogo entre duas pessoas. Era um jeito dele trazer o Canadá até a mim.

Se eu dissesse apenas ‘obrigada pelo chocolate’, sem notar sua origem, sem falar nada, não teria havido a conversa.

Lelê, que é muito sensível e saca tudo, veio falar comigo disso depois. Do jeito que conversei com ela a partir da observação da embalagem.

Pois no dia a dia a gente não tem olhos pra ver quase nada, nem ninguém. Não vê a faxineira silenciosa que vive de limpar o banheiro da empresa ganhando o salário mínimo. Não vê o garçon que traz a comida no restaurante. Não vê o motorista do ônibus, não vê ninguém. E, quando vê, pouco liga.

O ritmo louco, o egoísmo, nos cegam. Pior. Só vemos os ERROS das pessoas. Uma empregada doméstica ou uma cozinheira pode fazer todas as refeições da família sem receber um elogio. Mas basta ela caprichar no sal num dia pra receber uma bronca de que a comida estava salgada demais.

Estamos insensíveis. Cegos, surdos, mudos. Não temos coragem de dizer a verdade, de expor os sentimentos. Tudo o que publicamos abertamente nas redes está filtrado, em todos os sentidos. São filtros que nos fazem parecer melhores. Melhores do que somos e melhores que os que nos circundam. Filtramos tanto que nem enxergamos mais as pessoas atrás de tantos véus. Ou máscaras.

Essa falta de visão impede até mesmo o raciocínio. As pessoas não sabem mais construir argumentos, só sabem xingar. Não admitem seus erros, não pedem desculpas. Não se importam se magoaram o outro. Porque o outro não tem a menor importância.

E assim vai. Um não se sensibiliza, o outro se vende, o outro não tem escrúpulos. Olha, eu sei que TODOS nós fazemos concessões quando precisamos, porque precisamos trabalhar, viver, ganhar salário. Mas você pode se manter íntegro até num meio longe do ideal. Você pode semear sua integridade em qualquer lugar em vez de se deixar contaminar.

Ando muito cansada. Mas estou feliz. Sou uma pessoa de sorte. Sempre tive muita sorte na vida. Usando o clichê mais adequado para a ocasião, a ‘sorte sempre sorriu pra mim.’ Estou exausta, mas daqui a uma semana saio de férias com a família e vou viajar. A faxineira que limpa o banheiro da firma vai continuar aqui. Passando pano, limpando a pia, lavando os vasos. Ela, mais do que eu, sabe o quanto o ser humano não tem a menor consideração pelo outro.

Por isso, quem tem sorte, quem tem dinheiro, quem tem acesso a qualquer bem cultural, deveria agradecer tudo o que tem através de seus gestos. Não deixando atrás de si um rastro de sujeira pro outro limpar, uma trilha de lixo pro outro catar, uma poça de ofensas pro outro sofrer.

Hoje eu estou me sentindo a última bonequinha babushka de mim mesma. Pequena e vazia. Mas ainda tenho coragem pra dizer que precisamos todos nos curar dessa doença social de 2012 chamada egoísmo que mata.

Piloto automático

Liguei o piloto automático. Que semana cansativa, meu D’us. Nem sei mais o que estou fazendo. Mas estou banhada, cheirosa, arrumada e pronta para ir ao Hoje em Dia entrevistar o Rodrigo que foi eliminado ontem.
O sol lá fora é um estímulo para enfrentar o dia. O problema é a dor no corpo que vai da nuca ao calcanhar.
Mas, vamos lá, que reclamar da vida não dá.
Bom dia.